De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Saúde, bem-vindo ao futuro!

Toda a gente fala na saúde. Mas quando toca a nós próprios, a saúde só vem à baila quando falta. E, felizmente, para a maioria das pessoas, com o aumento do nível de vida e condições sanitárias das últimas décadas, outras preocupações que não a dita preenchem o quotidiano. E quando vem a gripe, marca-se consulta na Caixa e pronto. Os mais hipocondríacos por razões obscuras irão à consulta, solicitando uma TAC, que será prontamente marcada por um médico prestável numa consulta de 5 minutos a contar para o censo diário. E o que um dia foi estar doente, no tempo dos nossos avós, já não vive na memória de ninguém. Um tempo em que uma tuberculose na família significava um longo calvário e a morte de alguém, e uma operação cirúrgica levava a dívidas ruinosas. Paria-se e morria-se em casa. E o falecimento súbito de uma pessoa, pairava como ameaça constante. Uma infecção galopante, dois dias depois de um corte inócuo num dedo ou de um parto aparentemente normal. E o médico ia a casa. Do que a doença costumava ser já ninguém se lembra.
Então apareceu o Governo Providência. Mais ou menos cobertura universal, com variações de país para país, mas como resultado uma expansão enorme do número de encontros médico-doente, dos exames pedidos, das receitas prescritas, dos profissionais envolvidos, dos recursos mobilizados. Com a gradual banalização e monetarização do sistema, com somas astronómicas e interesses poderosos em jogo, com as faculdades de medicina a garantirem à entrada 98% de aprovados, diplomados habilitados a prescrever receitas e ordenar exames, o conflito entre quem paga e quem recebe tornou-se o fulcro da questão, com o doente-utente no meio sem saber o que fazer ou que pensar.
Benvindos a hoje. O progresso tem sido entontecedor. Doenças que matavam sempre, são agora invariavelmente curáveis. E em muitas o diagnóstico tornou-se um brinquedo de crianças. Mas o ruído ensurdecedor dum sistema em crise, junto à ausência de memória colectiva, leva a esquecer o que se avançou. E o que salta à vista é o assalto frívolo ao sistema por parte de utentes sem taxas moderadoras eficazes, a prosaica obsessão com o ganho por parte de médicos, a beatificação do médico-empresário, a ganância de lucro das grandes empresas envolvidas, o papaguear dos políticos às voltas com o orçamento estatal, e uma situação disfuncional e de desperdício que a todos parece confusa.

E agora uma pausa. Disfrutemos do que temos. Percamos peso, deixemos de fumar, façamos exercício. Provavelmente a doença ou acidente que teremos serão diagnosticados e tratados, a nossa longevidade definida pela história da nossa família.
Mas cuidado, o sistema é antropofágico. Nos últimos anos de vida seremos nós quem alimenta o ogre. Nos EUA a maioria das despesas e proventos desta medicina “curativa” é feita nos últimos 2 ou 3 anos de vida. Todos os actores envolvidos nesta girândola final têm interesses pessoais, de grupo ou de classe, que os tornam incapazes de racionalizar e transformar o sistema. E as famílias dos doentes, depois de abandonarem os velhotes em lares da terceira idade, exorcizarão o sentimento de culpa exigindo do sistema que tudo seja feito pelo macróbio, mesmo que não façam a mínima ideia do que estão a exigir. E o doente é deixado sozinho. É deixado a ele a decisão final, o basta. Mas isto, partindo do princípio que estará em condições mentais de o fazer, o que não acontece na maior parte das vezes. E voltamos ao ponto de partida.

Tudo irá mudar. O que não faz sentido não pode durar sempre.

Provavelmente seremos deixados com a maioria dos benefícios conquistados, num sistema com menos desperdício e menos redundâncias, menos parasitismo e mais harmonia entre os actores envolvidos. Mas será provavelmente um serviço impessoal. E doenças menos frequentes, que não sejam imediatamente óbvias nos primeiros exames de rotina, não serão diagnosticadas ou tratadas, as heurísticas artes necessárias para isso não farão parte do equipamento educacional e mental de médicos-funcionários ocupados num trabalho de rotina, e os grandes laboratórios têm pouco interesse neste tipo de enfermidades por razões comerciais. Mas pouca gente morrerá de parto, colecistite, ou apendicite como acontecia há cem anos.
E, lentamente, os serviços de saúde passarão a fazer parte do tecido social, tal como os CTT ou o fornecimento de água canalizada, de que ninguém se lembra porque, geralmente, funcionam bem. E os grandes interesses financeiros, com margens de lucro reduzidas, desviarão a atenção para outros horizontes com proventos mais aliciantes. E, novamente, a calma reinará. Espero eu.
P.S. Sabiam que em Cabinda se pode apanhar a Loa-Loa, regressar-se à Europa, passar os próximos anos completamente assintomático, até que um dia numa aflição ocular, notamos ao espelho um vermezinho fininho a passear num dos nossos olhos?

José Luís Vaz Carneiro
Abril, 2011

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

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