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Ribeiro é, sem duvida, uma das artistas plásticas portuguesas menos conhecidas. A sua vida nos quatro cantos do mundo e a aversão marcada que tem pelas entrevistas fazem com que a sua obra seja praticamente desconhecida.

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Recebeu-nos na sua grandiosa casa de Nafarros e tivemos o prazer de com ela passar uma tarde e conhecer a sua obra mais recente.
Ribeiro nasce no fim da Primeira Guerra em 1917 em Dornelas, Trás-os-Montes, filha de Fulgêncio Ribeiro e Isaura da Anunciação. Passa os primeiros anos da sua vida em Vila Real onde o seu pai era contabilista na firma Deodato Baptista & Herdeiros.
No período entre guerras, Fulgêncio aceita um emprego na Companhia Colonial do Pafuri e a família instala-se em Nacala, Moçambique.
Ribeiro guarda gratas recordações da escola, junto à catedral de Nossa Senhora de Boa Viagem e da simpática casa de praia, junto ao farol, na saída da enorme baía.

Catedral de Nossa Senhora de Boa Viagem, em Nacala
Catedral de Nossa Senhora de Boa Viagem, em Nacala
Praia junto ao farol, em Nacala
Praia junto ao farol, em Nacala

Mais tarde, com a promoção do pai em 1927, a família muda-se para Lourenço Marques. Mora numa simpática moradia na Rua Belegarde da Silva e estuda na Escola Comercial na Avenida 24 de Julho, onde o seu professor de caligrafia cedo notou uma invulgar aptidão para o desenho.
Em 1935, numa festa de Carnaval no hotel Polana, conhece o seu futuro marido o milionário Henri Ducloisoeil, um apaixonado pela geologia, recém chegado de uma visita ao Gurué.
Casam-se e no mesmo ano partem no avião de Henri em prolongada lua de mel para os highlands de Madagascar em busca de pedras semi-preciosas. É aí que a Segunda Guerra os surpreende. O retorno a França era impossível e o casal decide permanecer na ilha apesar do controlo de Vichy. Alternam estadias no palacete de Atananarivo com a simples casa de madeira e zinco da plantação de abacates em Marolinta, à beira do rio Bevoalavo. Uma existência calma, longe dos horrores na Europa.
É nesse período que Ribeiro publica a monografia “Flore du district de Tsiroanomandily” célebre pela beleza invulgar das aguarelas.
O casal assiste incólume à conquista da ilha pelas forças aliadas, comandadas pelo general Robert Sturges, em Novembro de 1942 e organiza com prazer, no seu palacete, a recepção ao General Paul Legentilhomme, encarregado pelo General de Gaulle de administrar a ilha.

Hotel Polana
Hotel Polana
Cartaz Hotel Polana
Cartaz Hotel Polana

Em 1944 Henri perde a vida num trágico acidente de aviação quando sobrevoava a cordilheira Maromokotro no seu Morane-Saulnier. Uma expedição encontra os destroços do avião relativamente intacto, sem vestígios de sangue. O equipamento de emergência, a bússola do avião e o corpo, contudo, nunca foram encontrados. Crê-se que Henri tenha sobrevivido ao acidente e que com o equipamento de emergência se tenha embrenhado na floresta, acabando por ser comido pelos temíveis Zafizoro que infestam aquelas montanhas.
Com o fim da guerra, Ribeiro decide instalar-se em Paris na imponente mansão dos Ducloisoeil na Avenue Foch. Através dos seus contactos familiares mergulha na vida social e cultural da cidade. Um encontro casual com Albert Camus, de quem rapidamente se torna amiga, faz-lhe descobrir a avant garde intelectual parisiense e frequenta assiduamente reuniões com Jean Paul Sartre, Simone Beauvoir, Jean Cocteau e Jean Genet.
A sua fortuna pessoal permite-lhe apoiar algumas iniciativas culturais e é assim que parte para o Rio de Janeiro em 1959 com Camus, para filmar “Orfeu Negro”, onde colabora activamente nas filmagens e depois na montagem do filme.

Jean Cocteau
Jean Cocteau
Orfeu Negro
Orfeu Negro
Albert Camus
Albert Camus

A admiração que Jean Cocteau tem por Ribeiro faz com que a inclua no célebre painel na igreja Notre Dame de France, em Leicester Place, na figura de Madalena.
Esta é uma das raras representações de Ribeiro que são conhecidas.
No ano de 1960, encontramo-la em Cuba, com Sartre e Beauvoir que visitam a jovem república a convite pessoal de Fidel Castro.
Rapidamente se apaixona por Havana e faz longas estadias no Hotel Nacional.
É também em 1962, que durante uma longa estadia com Agnés Varda, da qual nasce o famoso documentário ”Les Cubains”, que trava amizade com o já muito idoso Jose Segura Ezquerro que pinta o único retrato conhecido de Ribeiro, hoje exposto no Museu Nacional de Arte Cubana.

Com Sartre e Beauvoir em Cuba, a convite de Fidel Castro
Com Sartre e Beauvoir em Cuba, a convite de Fidel Castro
Retrato de Ribeiro
Retrato de Ribeiro

A sua paixão pelo xadrez leva-a, em 1964, a participar num torneio onde encontra Marcel Duchamp. As descrições da vida cultural do outro lado do Atlântico convencem-na a mudar-se para Nova Iorque. Através de Marcel conhece Peggy Guggenheim de quem se torna amiga íntima. Juntas planeiam muitas das aquisições daquilo que mais tarde fica exposto no Peggy Gugenheim Foundation no Gran Canale de Veneza.
Torna-se uma trustee muito activa do Metropolitan Museum of Art e uma presença constante na frenética vida cultural nova iorquina.

Marcel Duchamp
Marcel Duchamp
Peggy Guggenheim
Peggy Guggenheim

A revolução portuguesa de 1974 faz-lhe relembrar o seu país aonde nunca mais tinha voltado. Tem 57 anos quando em 1975 conhece Otelo Saraiva de Carvalho, numa recepção nas Nações Unidas e toma subitamente a decisão de abandonar Nova Iorque para voltar a viver em Portugal.
Instala-se no magnífico palácio romântico da Quinta Alcochofreiras em Nafarros ,onde vive uma vida de reclusão dedicada quase apenas à jardinagem, pontuada pelas longas visitas dos amigos.
É em 1985 que a vida idílica em Nafarros se desmorona, umas vagas queixas abdominais levam ao diagnóstico de pseudomyxoma peritonei. Operada por Gentil Martins e assistida pelos melhores médicos da capital, Ribeiro carrega, contudo, um prognóstico pesado de apenas alguns meses de vida. Uma ida relâmpago a Nova Iorque ao Sloan Kettering Center e a Rochester à Clinica Mayo, apenas confirmam a opinião dos especialistas portugueses.

Casa de Nafarros
Casa de Nafarros

No regresso a Portugal, conformada com a sua sorte, ao fazer o testamento com os seus advogados António Bramão e Henrique Raki tudo muda. Estes sugerem-lhe tentar uma cura com medicina aiurvédica em Trivandrum no Kerala Ayurvedic Health Care com o célebre mestre Mahji Damkujah. Com uma nova esperança, Ribeiro parte de imediato para Kerala e contra todas as expectativas dos especialistas portugueses e americanos os esotéricos tratamentos de Damkujah revelam-se eficazes. No espaço de três meses assiste-se a uma regressão total do tumor.

Em tratamento de uma raríssima doença neurológica, no KAHC, está também o jovem magnate B. Fernandes, de Calcutá. Durante o longo período de convalescença, o comum interesse pelas artes faz nascer entre eles fortes laços de amizade.
E é Fernandes que acaba por catalisar o início da carreira pictórica de Ribeiro, ao mostrar-lhe as famosas fotografias do templo de Sesa Naga na ilha de Baratang. Feitas pelo coronel Fluffy* poucos anos antes em circunstancias trágicas, a pesada carga simbólica daquelas imagens fazem com que Ribeiro monte o seu cavalete nos jardins do KAHC e começa a pintar.
Começa então uma nova etapa na vida de Ribeiro e após a prolongada convalescença, torna-se hóspede frequente da “Pink House”, a mansão de B. Fernandes em Park Street, o bairro mais exclusivo de Calcutá.
Numa das inúmeras festas na “Pink House” conhece o já idoso Satyajit Ray. Entre eles há uma notável sintonia que a leva a colaborar, em 1986, numa das últimas obras do famoso cineasta, o documentário “Sukumar Ray” sobre a vida do seu pai, o famoso escritor.
Através de B. Fernandes conhece também Ravi Shankar, passando temporadas longas com sua mulher, Sukana Rajan, na casa de Delhi. Numa das frequentes viagens de Ravi ao Mehbood Audio Studio em Mumbai, Ribeiro acaba por se enamorar por Malabar Hill e decide comprar “Regency House”, uma encantadora mansão colonial construída em madeira e zinco, rodeada por um frondoso jardim tropical.
Instalada em Mumbai, cedo as suas festas, que reúnem a intelligentsia, tornaram-se célebres. O jovem Salman Rushdie, então recém chegado de Cambridge, foi convidado assíduo, animando as soireés com a sua inimitável veia iconoclasta. Os anos correram céleres entre a vida cultural intensa de Mumbai e a luxuosa mansão de B. Fernandes, em Calcutá. A pintura de Ribeiro, nesta fase, caracteriza-se essencialmente por naturezas mortas e alguns retratos.

Pink House, Calcutá
Pink House, Calcutá
Regency House, Mumbai
Regency House, Mumbai

É numa viagem a Tóquio em que acompanha B. Fernandes que, no luxuoso hotel Seiyo de Ginza, conhece Akira Kurosawa.
A história é insólita e merece ser contada.
Ao entrar no elevador para o restaurante, no último andar, há apenas um senhor japonês idoso. O elevador tem uma pane e apesar de todos os esforços do staff do hotel, durante três horas, ficam fechados no escuro.
Conversar era inevitável e as histórias da colaboração de Ribeiro na rodagem de “Orfeu Negro” com Camus e o seu papel na concepção do documentário “Les Cubains” com Agnés Varda encantam Kurozawa. Quando, finalmente, chegam ao restaurante no último andar, Kurosawa apresenta-a a Scorcese com quem estava a rodar um filme e convida-a a trabalhar com eles.

Akira Kurosawa
Akira Kurosawa
Takeshi Kitano
Takeshi Kitano

Estamos em 1989 e o filme, um dos últimos da carreira do mestre, é “Dreams”. Trata-se de um filme com múltiplos episódios. Aquando da apresentação do filme no festival de Cannes em 1990, Kurosawa, ao ser entrevistado para os Cahiers du Cinema, presta a merecida homenagem à colaboração de Ribeiro. De acordo com a entrevista, Ribeiro foi a principal criadora do episódio que termina o filme. Trata-se de uma sequência onírica em que se sugere um retorno a um modo de vida mais simples e verdadeiro, inspirado nas suas memórias de infância vivida em Dornelas.
Na sofisticada vida nocturna de Tóquio torna-se frequentadora assídua, em Rappongi, do famoso TSK:CCC o bar do célebre yakusa Agata Hirokusakaro.
É no TSK:CCC que, uma noite, conhece Takeshi Kitano que tinha acabado de sofrer um grave acidente de moto que lhe deixara metade da face paralisada para sempre e atravessava uma fase difícil de vida desregrada, com muito álcool e drogas pesadas. É Ribeiro que lhe sugere a solução para toda a sua frustração, iniciando-o no caminho da pintura.

Takeshi Kitano
Takeshi Kitano
Takeshi Kitano
Kitano e Ribeiro
Kitano e Ribeiro

A energia visual, um pouco naif, que se desprende das obras de Kitano, o seu humor selvagem e vontade de viver inspiram-na também. O estilo de Ribeiro muda, acabando por se tornar mais livre…
Instala-se em Shimokitazawa e começa um novo período de criação artística em colaboração com alguns dos projectos mais ousados de Kitano.
Através dos seus contactos parisienses dinamiza a exposição de Kitano em Paris, na Cartier Foundation, em 2010.
E é com o encerramento da exposição, em Setembro de 2010, que Ribeiro decide voltar à mansão de Nafarros para prosseguir o seu projecto artístico.
Fomos encontrá-la com os seus 97 anos no seu luminoso estúdio na Quinta dos Alcochofreiros.
Uma figura frágil que irradia uma energia serena, envolta num deslumbrante sari. Ribeiro permanece fiel à sua dieta vegetariana e preceitos ayurvédicos, fazendo 6 horas de meditação por dia. Talvez isso explique a energia concentrada que pōe, ao pintar as suas gigantescas telas de 3×5 metros.
No atelier fomos encontrar obras que oscilam entre a energia gestual de um Pollock e outras com a riqueza de composição formal de um Mondrian.
Com a sua simplicidade, Ribeiro, parafraseando o seu amigo e ensaísta Z.L. Karneyro, explicou-nos o seu desinteresse por aquilo que chama “arte investimento”. Para si, acto de criação artística só é válido se for livre de regras e constrangimentos comerciais. Diz brincando, que se fosse mais nova certamente se dedicaria exclusivamente à street art…

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