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Ponte Duca d’Aosta

A ponte Duca d’Aosta não está em nenhum dos roteiros habituais dos a turistas mas oferece pistas curiosas sobre o passado recente de Itália…

É uma estrutura minimalista de betão, muito elegante, revestida de mármore branco de Carrara, da autoria de Vincenzo Fasolo que contrasta com a ornamentação exuberante das outras pontes sobre o Tibre, situadas mais a sul. Nas duas margens, de cada lado da estrada, encontram-se colunas com baixos relevos que nos chamaram a atenção mas cujo significado não compreendemos, na altura.

A ponte foi edificada durante o regime de Mussolini e o nome foi escolhido para homenagear o general Emanuele Filiberto d’Aosta, um dos comandantes das tropas italianas durante a primeira guerra mundial, cujo papel é geralmente esquecido.

Em 1914, os longos conflitos que levaram à unificação da Itália, tinham terminado apenas há 50 anos e a entrada na guerra ao lado da Inglaterra e da França demorou quase um ano.  A situação económica era muito precária e o grosso da população era composto por camponeses analfabetos.  O apoio popular ao recrutamento foi, por isso, muito fraco com numerosas deserções e atos de indisciplina.

O início dos combates foi desastroso para a Itália.  O confronto com as tropas austríacas teve lugar nos Alpes.  O frio, o terreno acidentado, as avalanches e a fome provocaram grandes baixas nos soldados italianos.

Com o fim da guerra e apesar dos 600.000 mortos, o esforço italiano não teve as compensações esperadas e muitos sectores da sociedade italiana foram ficando profundamente desiludidos com os sucessivos governos.

É esta desilusão profunda da maioria da população italiana que explica que o bluff de Mussolini, com a marcha sobre Roma em Outubro de 1922, tenha resultado tão bem. 

Os baixos relevos que nos chamaram a atenção são da autoria de Ercole Drei, Domencio Ponzi, Oddo Valenti e Vico Consorti e  os temas referem-se aos combates contra os austríacos nos rios Inzonzo, Tagliamento, Sile e Piave.  O rio Piave acabou por se tornar o emblema da corajosa resistência italiana aos avanços dos austríacos.

Na realidade, foi certamente o apoio do general Emanuele Filiberto d’Aosta a Mussolini uma das causas do êxito da marcha dos fascistas sobre Roma, em Outubro de 1922.  Na altura, embora defendida por tropas bem equipadas, Roma acabou por não fazer frente aos cerca de 10.000 adeptos de Mussolini, escassamente armados.  O rei Vittorio Emanuele III dissolveu o parlamento e convidou Mussolini a formar governo.  Em 1926, o general Emanuele Filiberto d’Aosta foi nomeado marechal e em 1942 foi homenageado com a edificação de uma ponte, como agradecimento.

Manuel Rosário
Junho, 2022

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Wolrd War I and fascism

Ponte Duca d’Aosta, a monument of glory to the Italian soldier

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Fotos de Manuel Rosário e Minnie Freudenthal

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Escrito por

Médico Gastroenterologista, nasceu em Lisboa em 1951. Fez o curso de Medicina na Faculdade de Medicina de Lourenço Marques e Faculdade de Medicina de Lisboa. Fez a especialidade no Harlem Hospital em Nova Iorque. Vive em Lisboa desde 1986.

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Últimos comentários
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    Belíssimo! Grandes fotos!

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    Estes baixos relevos não podiam ser mais actuais. Guerra é sempre guerra. E ainda há quem diga que a História não se repete…