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Poesia no século XXI

No Dia Mundial da Poesia na Sociedade Portuguesa de Autores

A POESIA NO SÉCULO XXI:
SENTIMENTO, LIBERDADE E MEMÓRIA

Neste dia de celebração mundial da poesia podemos hesitar entre duas reflexões: há mais vida para além da poesia, porque a vida é a realidade do que nos rodeia, a vida é tudo o que abarca o outro e a sua existência, enquanto lhe amplia ou diminui o sentido; mas também podemos (devemos?) afirmar que há mais poesia para além da vida, ainda que a vida se tenha tornado morte cada vez mais chocante e visível num mundo globalizado. Evocando Sophia de Mello Breyner, não podemos ter visto, ter lido ou ter ouvido e ficar sem dizer nada.
Falar de poesia, do acto de criar, é falar de algo que nos transcende, e coloca numa outra esfera o próprio sentido do real e da vida, nossa ou alheia. O poema é solitário – sem dúvida – no acto da sua escrita; mas tem de ser solidário; connosco e com o outro, pois no acto dessa escrita é ao outro que nos dirigimos, ao outro-em- nós, que nos põe a caminho, como diria Paul Celan, para “ o mistério do encontro”. Encontro agora sim, com o real, na sua luz ou na sua face mais obscura: a raiz da existência.
Toda a poesia é poesia do mundo. Faz-se na memória, faz-se ou desfaz-se na pura liberdade do sentimento e do desejo de um outro:
“O poema quer ir ao encontro de um Outro, precisa desse Outro, de um interlocutor”, diz Celan, no Meridiano, discurso de quando recebeu o Prémio Georg Buchner em 1960. Esta afirmação mantém, no nosso tempo, a sua actualidade. O Outro é a razão do poeta e da sua poesia. Falemos pois de poesia – para além da vida e da morte, falemos de poesia como raiz e fundamento do Ser no Tempo.

Rilke, nas suas Cartas a um Jovem Poeta, sublinha que, ao começar a escrever, um poeta deve evitar falar de amor, pois a expressão de sentimentos tão íntimos retira distância e universalidade a essa matéria delicada. Parece recusar a expressão do amor na poesia. Mas não é assim, a história da poesia não confirma, antes desmente, uma tal afirmação: vejam – se os exemplos da lírica cortês, com as nossas belas Canções de Amigo, os sonetos de Camões, e chegados ao século XX, mesmo sem sair de Portugal, descobrir a expressão do amor mais doloroso numa Florbela Espanca…
Não tenhamos medo de dizer que poesia é sentimento: a poesia é a nobre expressão de um sentimento, frequentemente amoroso, mas não só.
Porque há mais poesia para além do amor, como há mais poesia para além da vida…

É com os Modernistas que se adquirem novos e por vezes mais do que irreverentes e desafiantes conceitos; para alguns deles, como Pessoa/Álvaro de Campos, o sentimento de amor, como as cartas de amor, só podem ser ridículos. A observação distanciada, mesmo das puras sensações, a descrição objectiva, a expressão decantada, impõem-se ao verdadeiro poeta.
Percorrem-se os vários “ismos” para exorcizar o peso enevoado dos simbolistas, ou a máscara do célebre grito expressionista.
Os Futuristas portugueses, com Almada Negreiros, ou os modernistas do Orpheu querem sensações, mas alteradas: nada que possa fazer lembrar as emoções do passado. Será esta, por um tempo, a doutrina.
Pretendem, mas não conseguem, abolir de um golpe a Memória. Caso a caso, em cada um destes revoltosos poderemos ir descobrindo raizes e memórias…abolir a memória seria abolir o próprio exercício do dizer.
Se é certo que os Surrealistas deram estatuto à voz e ao dizer do inconsciente, se com a sua prática poética se revoltaram e se divertiram (o humor era permitido, “desconstruía”) – depressa em Portugal o movimento, tal como em França, veio propôr uma nova doutrina, de intervenção e resistência. A França tivera o seu momento, com a ocupação nazi; Portugal tinha ainda o seu, com a ditadura de Salazar.
E como diríamos que se definiu esta poesia nova, de intervenção na vida, na cidade ? Pois pelo sentimento: de revolta perante a injustiça, de asfixia pela falta de liberdade.

Agora, no século XXI, a poesia tornou-se tão global quanto a comunicação, e há que fazer um novo uso desta globalidade.
A poesia é sentimento e expressão: é o impulso de uma voz interior que não se cala.
O poeta sabe que morre, se não falar, se não disser o seu dizer !
Para Novalis só um criador podia interpretar o sentido da vida; e só um poeta podia curar as feridas causadas pela razão.
Paul Celan dirá que a realidade não está simplesmente exposta à nossa frente, não existe: é preciso procurá-la e merecê-la.
E quanto ao que é a Poesia, diz Celan:
“ A poesia já não se impõe, expõe-se”
E ainda:
“ Só mãos verdadeiras podem escrever poemas verdadeiros. Não vejo diferença entre um aperto de mão e um poema”.
Celan tinha assistido e escapado por milagre ao Holocausto cuja evocação também decorreu este ano.
Impôs a si mesmo o dever da Memória, que guardou até ao fim, e o da Liberdade, de que não abdicou, até ao ponto de escolher a “língua do inimigo” para a sua prática poética de permanente busca e interrogação.
Celan em tão poucas palavras disse o essencial ao afirmar que um poema verdadeiro é como um aperto de mão honesto. Trouxe para a esfera da poesia a questão essencial da Ética, lançando-nos para a reflexão do Bom, do Belo, do Verdadeiro, como entidades inseparáveis nesta esfera platónica do reino das Ideias.
O meu voto é que à Poesia e aos poetas de agora se exija a honestidade de um verdadeiro aperto de mão: acima de tudo livre e sempre solidário.

Yvette Centeno
Lisboa, 21 de Março de 2012

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Nasceu em Lisboa, é casada, tem quatro filhos. Cresceu numa casa onde havia livros. Leu sempre, leu muito, de todas as maneiras. Doutorou-se em Literatura Alemã, mas interessou-se sempre por História das Ideias, História de Arte e Literatura Comparada. É Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde criou os primeiros cursos de Tradução Literária. Tem obra de ficção, poesia, teatro e ensaio publicada em várias línguas. Quanto à música, as preferências andam pelo jazz, Mozart e Wagner… Foi recentemente distinguida com a Medalha de Honra do Autor Cooperante pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

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