De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Pátio dos gigantes

Foi aquele tiro que assustou o mundo. Cobriu-se de poeira espessa e um silêncio total apoderou-se dos eventos.

Sinto ainda a mão do meu avô despegar-se da minha no meio da confusão. Do outro lado, bem agarrada, uma galinha enroscava-se no meu peito.

O meu avô sempre me dizia: se tiveres que fugir leva uma galinha. Há-de te fazer jeito.

Ali perdida, sem ver nem ouvir, sentia-me acompanhada por aquele assustado animal.

Vagueei aos apalpões e nem sei como percebi que aquela porta tinha um buraco mesmo do tamanho duma mão. Mergulhada naquela ausência de som, abri a porta, devagar, com cautela. Procurava um abrigo.

Se li Garcia Marquez, foi depois de tudo isto acontecer. Confundo-o com a minha própria realidade. Talvez também ele tenha conhecido os Gigantes.

Escrevo tudo isto muitos anos depois de ter aberto aquela porta. Abria-a com todo o cuidado de quem não sabe o que vai encontrar. Também ali não havia qualquer som. Estava escuro e sentia-me mais cansada do que o mundo lá fora. Enrosquei-me num lugar qualquer, entre uma parede e uma superfície lisa que pensei ser uma coluna. Sentia que algo me protegia naquele lugar e talvez por isso dormi um sono profundo.

Quando acordei perdi-me no olhar intenso daqueles gigantes. Mais quietos do que eu, surdos e mudos. Só as suas expressões e gestos contavam das suas aventuras e desafios. Imaginei-os em acção noutros fins de mundo. Sim, certamente que o mundo acabara, assim envolto em pó e em silêncio, muitas vezes antes. Tanto de esperar pela vitória, estes gigantes, tinham empedernido. E eu? Também ficaria grande como eles se dali não saísse?

De repente ouvi o cacarejar da minha galinha. Mexi só um pé e nenhum dos gigantes reagiu, movi-me como uma escultura sem os incomodar. O corredor abria numa porta de luz intensa. O ar parecia ter a espessura da minha ansiedade quando senti o corpo correr, ao ver a galinha do meu avô passar em contra luz num intenso cacarejar.

Não a mates, não a mates! Ouvi-me a gritar para um rapaz que pousava suavemente as ferramentas de escultor que tinha na mão. Em cima de nós, num pátio verde fechado, o céu era azul. Não havia pó, não havia guerra, só havia aquele rapaz.

E foi quando notei que o som voltara. Calma, calma! Dizia o rapaz. São só esculturas de antigos Generais. Viveram há mais tempo do que o pó. Agora estás segura comigo! Não comemos a galinha, só os ovos que ela der…

O meu avô tinha razão. O que diria ele destes gigantes?

 

Texto inspirado no Atelier do jovem escultor Joel Puello, em Santo Domingo,

República Dominicana, 2015.

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Alice Minnie Freudenthal, médica Internista pelo American Board of Internal Medicine e Ordem dos Médicos Portuguesa. Áreas de interesse; neurociência, nutrição, hábitos e treino da mente. Curso de Hipnose clínica pela London School of Clinical Hypnosis. Curso de Mindfulness Based Stress Reduction. Palestras e Workshops de diferentes temas na área da neurociência para instituições académicas, empresas e grupos.

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