De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

O arquitecto Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes – “Pancho” Guedes deixou-nos fisicamente no dia 07 de Novembro. No período das décadas 50, 60 e início de 70, o mais criativo do seu percurso executou mais de 500 projectos de edifícios, não somente para Moçambique mas também para Angola, África do Sul e Portugal.

Os seus edifícios e projectos exuberantes, ecléticos, complexos, e, resultantes de uma específica tomada de posição estética, foram suficientemente reconhecidos pela sua qualidade e originalidade.
A diferença era marcada pelo facto de serem projectados por um arquitecto, crescido em África, com cultura africana e com uma “linguagem arquitectónica muito inovadora que se engaja explicitamente num diálogo com o contexto regional: nos materiais usados, na adaptação dos edifícios às condições de vida e de clima locais, mas sobretudo nos elementos mais formais (recorrendo frequentemente a formas geométricas e padrões de cores derivados das tradições decorativas da África Austral)” [1].
Pancho Guedes foi também pintor e escultor levando-o a tratar cada edifício como uma escultura, aplicando à arquitectura as várias formas de arte. “No início, foi atraído pela aproximação ‘anti-racional’ do Movimento Dada e Surrealista, do Expressionismo e ainda da obra de António Gaudí, com as suas formas biomórficas e a sua aparência ‘mole’. Mais tarde, porém, combina estas com um interesse na tradição racional, límpida, geométrica e simétrica do Classicismo” [2], fazendo do seu trabalho, um «caso à parte» na arquitectura portuguesa da segunda metade do século XX.
Podemos dizer que é na combinação entre o ambiente em que se desenrola a sua formação e a expressão de uma matriz acentuadamente plástica das suas intenções formais que se enraíza e se vai acentuando a afirmação de uma atitude própria e autónoma de projectar, com resultados surpreendentes.
Antes de Pancho Guedes ter sido professor e director do departamento de arquitectura na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo após a Independência de Moçambique, foi professor nos anos 50 e 60, na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, em Maputo, no curso de Pintura Decorativa, juntamente com Silva Pinto, João Aires, António Quadros, João Paulo, Garizo do Carmo e outros, onde me ensinou arquitectura de interiores.
O que Pancho Guedes já fez pela cidade está demonstrado, está fisicamente espalhado pela cidade. A pergunta que se coloca neste momento é o que a cidade de Maputo pode fazer pela obra do Pancho.

[1] , [2] – João de Pina Cabral, – A Catedral das Palhotas: Religião e política no Moçambique tardo-colonial – Agosto 2005

 

Luís Lage
Novembro, 2015

Fotografias de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Arquitecto, Director da Faculdade de Arquitectura da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Moçambique.

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