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O meu burro

O herói da minha infância é um burro. Na verdade, sempre tive uma grande atracção por burros; não por aqueles exemplares de “homo sapiens” a quem se atribui um grau de inteligência reduzido e cujo número parece estar em franco crescimento, mas pelos verdadeiros, os de quatro patas e orelhas pontiagudas, cuja espécie, ao contrário da primeira, se encontra infelizmente em vias de extinção.

Nos anos 50, quando eu nasci, os burros eram presença habitual nas ruas de Lisboa. Numa época em que o transporte motorizado era escasso, eram estes animais que puxavam as carroças que diariamente abasteciam a capital, carregadas até ao limite com tudo o que se pudesse vender nos mercados ou distribuir às portas: hortaliças, sacas de batatas, petróleo, garrafões de vinho ou de azeite, lenha para os fornos, mobílias velhas e até blocos de gelo (na altura, não havia frigoríficos). Lembro-me bem de ficar extasiada a olhar para eles, a puxar velhos e desgastados atrelados cujas rodas eram quase da minha altura, com palas laterais junto aos olhos para impedir que se distraíssem do seu caminho e de pensar que mereciam melhor sorte. A minha mãe horrorizava-se perante as minhas tentativas frustradas de lhes dar de comer as cenouras que trazia de casa, à socapa.

Lembro-me sempre com gozo das burricadas que todos os verões organizávamos no local de férias, com burros alugados aos habitantes locais por 25 tostões ao dia (cerca de 0,01€) e que faziam as minhas delícias. Para nós, citadinos, era um divertimento que nos dava a ilusão temporária de pertencer ao mundo rural e para os burricos, era uma ocasião para se livrarem da rotina dos carregos diários.

Ora, sendo este quadrúpede um animal tão útil ao Homem desde tempos imemoriais, não se compreende o facto desta espécie ter sido sempre relegada para a categoria dos animais pouco nobres. Ao contrário dos cavalos, os burros foram sempre menosprezados e conotados com a pobreza, com a pouca inteligência, com a teimosia,  apenas fadados para trabalhos pesados.  Não é por acaso que os provérbios e dizeres populares tendem sempre a ridicularizar os pobres animais: “teimoso que nem um burro”, “a pensar morreu um burro”, “burro que geme, carga não teme”, “andar de cavalo para burro”, “burro velho não aprende línguas”,  “cor de burro quando foge”, etc, etc. Até no antigo jogo infantil , quem ficasse com a carta do burro, perdia.

Por outro lado, toda a gente sabe a importância de ter um nome. Mas também neste campo, em contraste com os cavalos e com muitos outros animais domésticos, estes equídeos raramente foram bafejados com essa atribuição. Que me lembre, na literatura, só dois asnos conseguiram sair do anonimato, Benjamin (G. Orwell) e Platero (J. Ramón Jiménez). Nem o jumento do Sancho Pança nem tão pouco o universalmente venerado burro do presépio tiveram direito a essa honraria.

Vem esta conversa de equinos a propósito dum pequeno livro infantil com que me deparei numa das arrumações de estantes e armários para que esta pandemia nos empurrou. Trata-se de um prémio que ganhei no Jardim Infantil, quando tinha 5 anos e que conta as aventuras de um burro que, esse sim, tinha nome, chamava-se Picotin. Não sei se é ele que está na origem da minha atracção por burros ou se é o contrário, o certo é que marcou definitivamente a minha infância.

A história conta-se em poucas linhas. Picotin pertencia a um moleiro que o obrigava a transportar grandes carregos e lhe batia constantemente com um pau. Um dia, farto da triste vida que levava, decidiu deitar a carga toda pelos ares e fugir para a floresta, onde encontrou um coelho violinista que o ensinou a tocar acordeão. O veado, a tartaruga, a lebre e o porco espinho, cada um com o seu instrumento, juntaram-se a eles e formaram uma orquestra destinada a animar a festa da Primavera. Mas o javali e a pega, invejosos por não saberem tocar nem cantar, decidiram sabotar a actuação de Picotin de modo a ridicularizá-lo perante os outros animais. Para isso, encheram o fole do acordeão com água e assim que este começou a tocar, saltou um repuxo que o deixou todo encharcado. No entanto, ao contrário do previsto, o público achou graça ao incidente e aplaudiu Picotin e os seus companheiros. Perante este inesperado desfecho, os dois invejosos pediram desculpa e, reconciliados, todos voltaram felizes para a casa da floresta. Para finalizar, Picotin convidou todos os amigos para tocarem junto da janela do seu antigo dono, mostrando-lhe assim a diferença entre a vida em liberdade e a escravidão em que este o mantivera.

Nunca mais me esqueci deste livro.  Pelo estado em que estão as páginas, devo-as ter folheado e lido vezes sem conta.  Ao relê-lo tantos anos passados, dou-me conta que é uma verdadeira lição de cidadania.  Está lá tudo: a defesa dos valores da liberdade, da amizade, da lealdade e da solidariedade; o respeito pelo outro e pela diversidade; o repúdio da violência e do bullying; o reconhecimento do erro; o amor pela arte e pela natureza; numa palavra, a decência.

Andamos nós enredados em discussões estéreis e absurdas acerca dos valores que se devem ou não transmitir às crianças e sobre os intrincados conteúdos das aulas de cidadania, quando afinal está tudo na história dum burro, com meia dúzia de páginas. Simples e conciso, como tudo o que é essencial.

Não me admira que esta raça esteja em vias de extinção. Infelizmente, cada vez há menos Picotins neste mundo.

Isabel Almasqué
Fevereiro, 2022

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Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

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Últimos comentários
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    Também me lembro dos burros. E dos cortejos de ciganos andrajosos, a passo lento, com mulas, burros e cães….
    Que previlégio ser velho !
    (falo por mim que sou muito mais velho do que tu Isabel…)

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      Podes ser mais velho, mas no que diz respeito a contacto com burros, não me parece que haja grande diferença.

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    Como sociedade estamos então com orelhas de burro ! Aqui, por onde descansamos daí , há muitos burros dos que gostas e que da vida das pessoas fazem parte.

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      Isso sei eu. Que tal trazerem daí um desses burricos?

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    Excelente, fantástico.
    Tal como “o escritório de meu pai”, o fabuloso outro texto que eu já conhecia

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      Muito obrigada pelo comentário que, embora demasiado generoso, encaro como um incentivo.