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O dinheiro não traz felicidade

O dinheiro não traz felicidade, mas ajuda-nos a tolerar melhor a pobreza

Nasci e cresci com uma relação desconfortável com o dinheiro. Não porque não o tivesse, mas porque tivesse tão pouco que a vida era um constante balanço de opções, uma espécie de agonia a fogo lento que me limitava a escolha, e conspirava para me constrangir o futuro a um número bastante limitado de opções.

E embora com o passar dos anos tenha aprendido a contornar esta limitação, a experiência inculcou-me na alma não só uma profunda reverência pelo dinheiro, como a certeza que o dinheiro é a medida fundamental da realidade, uma espécie de bitola que traz ordem à nossa visão do mundo. O dinheiro estabelece hierarquias, rege as nossas relações uns com os outros, e traz propósito e drama à vida, é o dinheiro que articula e dá razão a ideologias, a classes sociais e a lutas de classe, a romances permitidos e proibidos, e, num extremo, regula quem vive e quem morre. O dinheiro é a matéria que anima a realidade, e com a qual a transcendemos. O dinheiro está para além da ética ou da moralidade, tanto é usado para a compra de armas que semeiam sofrimento e morte como para o desenvolvimento de medicamentos que salvam vidas.

É assim que abrigo a inabalável certeza de que o desprezo ao dinheiro é sempre mais teatral que real, uma espécie de desejo por atenção expressa tarde na vida, e com nenhum impacto na realidade.
Raramente há ironia nas minhas palavras.

Adelino de Almeida
Fevereiro, 2024

Pintura de Tetsuya Ichida, fotos de Manuel Rosário

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Escrito por

Nasceu e cresceu em Lisboa, doutorou-se em Engenharia de Estruturas na University of Colorado at Boulder, e depois de décadas de uma carreira peripatética em consultoria de gestão, tenta agora reinventar-se como escritor e tem para publicação a sua primeira novela, The Sublime Eucharist of Alfred Packer.

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Últimos comentários
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    Excelente artigo obrigado Adelino.
    O dinheiro é condição necessária mas não suficiente para a felicidade. E a pobreza é condição suficiênte para a infelicidade.
    E com o tempo o dinheiro não é tudo, porque geralmente não é suficiente.

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    Como dizia um amigo meu ” o dinheiro não traz a felicidade mas traz uma coisa muito parecida…”