De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

O Bar (cadavre exquis 2)

O rosto de Fátima transfigurou-se; tentou desviar o olhar, fingindo um falso à vontade mas não conseguiu disfarçar um ligeiro tremor da mão que segurava o copo. Paulo virou-se na direcção da porta e viu um homem alto e corpulento, vestido de fato claro e gravata, com um chapéu que lhe escondia metade da cara. Sentou-se num dos sofás de couro mais afastados e, com um sotaque estrangeiro, pediu um café. Paulo notou uma súbita mudança na atitude de Fátima que se tinha agora voltado de costas para o recém-chegado. A conversa que até aí fluía, sofreu uma travagem brusca e, em surdina, Fátima murmurou que estava mal disposta e que queria sair dali, precisava de apanhar ar. Paulo sentiu uma tensão estranha no ambiente, notou o nervosismo crescente de Fátima e decidiu não fazer mais perguntas. Ao dirigirem-se para a porta, Paulo olhou de relance para o desconhecido e ao mesmo tempo que lhe pareceu reconhecer algo de familiar na sua postura, notou que, contrastando com o aprumo da restante indumentária, os sapatos estavam sujos de lama ainda fresca.

“Você conhece aquele homem?” perguntou Paulo enquanto se dirigiam para o carro. Fátima permaneceu em silêncio. Antes que pudessem chegar à Praça dos Trabalhadores, uma forte chuvada tropical desabou sobre a cidade, fazendo-os precipitar-se para dentro do velho Toyota. “Ao menos aqui podemos continuar a nossa conversa à vontade”, disse Paulo enquanto tentava sacudir a água da roupa. Fátima, sentada no lugar do pendura, não se mexia, como que encolhida sobre si própria. Olhando em frente, sem nunca encarar Paulo, disse: “É melhor levar-me a casa, se não se importa.”

Paulo regressou à esquadra, aborrecido por não ter conseguido avançar na investigação. A conversa com Fátima, bruscamente interrompida, tinha sido infrutífera e não tinha nada de importante a relatar ao seu superior. Mas a imagem daquele homem não lhe saía da cabeça. Já o teria visto antes? Em que circunstâncias?  A súbita mudez de Fátima teria sido apenas coincidência? Foi com estas interrogações na cabeça que Paulo adormeceu nessa noite.

Na manhã seguinte precipitou-se para a estante do arquivo fotográfico, na ânsia de encontrar uma cara que lhe tirasse as dúvidas acerca daquela figura enigmática, mas as dezenas de dossiers percorridos e as centenas de fotos examinadas nada esclareceram. Tinha de voltar a falar com Fátima, pensou. Mas como? Não lhe pareceu uma tarefa fácil, dada a atitude reticente do dia anterior. No entanto, tinha a certeza que ela sabia mais do que aceitara dizer. Pareceu-lhe melhor deixar passar uns dias e permitir que a recordação daquela tarde se desvanecesse. Talvez na próxima semana, voltasse à carga, mas tinha que a vigiar pois algo lhe dizia que ela se preparava para sair de Maputo na primeira oportunidade, sem o avisar.

Entretanto, decidiu ir novamente até à Ponte da Costa do Sol. Talvez algum detalhe importante lhe tivesse escapado nas visitas anteriores. As chuvadas dos últimos dias tinham deixado tudo enlameado, tornando mais difícil qualquer investigação no terreno. No entanto, os olhos de Paulo, habituados a reparar em todos os pormenores, foram subitamente atraídos pelo que lhe pareceu ser um maço de cigarros amachucado, já quase desfeito. Reparou também numas pegadas de sapato que lhe tinham passado despercebidas, mas que, pelo tamanho, só podiam pertencer a um homem corpulento. Calçou as luvas de látex que trazia sempre no carro e apanhou o que restava do maço de tabaco. Estava tudo muito deslavado, mas as letras TABAK, em cirílico, eram ainda decifráveis.  Que raio fazia ali um maço de tabaco russo? …

Isabel Almasqué
Janeiro, 2023

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Fotos de Manuel Rosário e Minnie Freudenthal

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Paulo Samu Gundo bateu com força a porta ferrugenta do cansado Toyota Corolla de um azul desbotado pelo sol. O carro está mesmo a ficar velho, pensou enquanto dava umas moedas ao mufana que o ficava a guardar. Tinha conseguido arranjar um lugar à sombra de uma velha acácia

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Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

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Últimos comentários
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    Muito bom. Interessante este “pegar na historia”. Continua?

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      Obrigada, Manuela. Pelo menos, a ideia é continuar. Vamos ver até quando.

    • Cristina Gonçalves

      É como a Isabel diz, Manuela… não quer “pegar na “história” e continuar?

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    Bravo Isabel ! Ce cadavre exquis est magnifique ! Continuez à jouer à ce jeu ! Si je maitrisais mieux le portugais, je m’y mettrais aussi ! Je dois te dire aussi que j”aime beaucoup tout ce que tu écris. Je t’embrasse tendrement. Eliane perrin

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      Merci Eliane. Je ne vois aucune raison pour que tu ne t’y mettes toi aussi, même en français. Pourquoi pas? Je t’embrasse fort.
      Isabel