De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Não há saudades mais dolorosas

Não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram.

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego

Eva afasta-se do espelho e pergunta-me como parece.

Pelo que vejo, apresenta-se como a semiótica de vaidade e posição social. Ou, pelo menos, o que há décadas – antes de deixarmos o país – costumava passar por posição social. Eva tem um porte imperioso, contido num vestido azul escuro e pontos brancos, de bom corte, sapatos de verniz e saltos suficientemente altos para indicar lazer, mas também suficientemente curtos para serem práticos. As meias finas sugerem sardas na pele pálida. Tudo na sua roupa combina.

Irrita-se quando lhe digo que está linda. Esta é dificilmente a ocasião para estar linda, afirma. São amigas queridas. Não as vejo há anos. São pessoas de bem. Continua, e olha para mim antes de cravar a farpa costumeira, não percebes nada destas coisas.

Na sua deficiente sintaxe, pessoas de bem e queridas amigas, referem-se pessoas de posição social superior. Pessoas cujo comportamento devo observar e copiar. Aquela última frase, não percebes nada destas coisas, resume-se a uma expressão de desespero, e a uma confirmação da minha incapacidade de estar à altura da sua família.

Obrigado por me fazeres companhia esta noite. Vejo que ainda estás abalado, diz-me.

O funeral do meu pai foi ontem, morreu dois dias antes disso e viemos de volta ao país para estar no funeral, e dado isso, não, não estava à espera deste encontro social com as amigas dela, digo-lhe. Não teríamos regressado se não fosse o funeral. Mas fico feliz por conhecer alguns das tuas velhas amigas.

Eva pega-me na mão e sussurra um agradecimento antes de se voltar para o espelho. Lenço ou pérolas? Pergunta.

Encolho os ombros. Eva franze a testa e levanta uma sobrancelha em reprovação.

As pérolas são menos casuais que o lenço, mas não demasiado formais para um jantar com amigos, digo-lhe.

Decide-se pelo colar de pérolas, volta-se novamente para o espelho e ronrona. Quero crer que ronrona por estar satisfeita consigo mesma. Veste um casaco cinzento e chama-me para sairmos.

Na receção do hotel verificamos se não há mensagens que nos façam a cancelar o jantar. Dou uma gorjeta ao porteiro, cujo rosto se divide num largo sorriso perante a quantia desmesurada com que lhe enchi a mão. Esta noite somos ricos, digo-lhe, depois de verificar que Eva não nos consegue ouvir.

Aconchegada no banco do carro Eva parece confusa. Coloca a morada no GPS, está bem? Diz-me. Nunca foste a T…, acrescenta.

A família de Eva tinha morado perto do nosso hotel. A família das suas amigas morava algumas portas abaixo na mesma rua, quando esta área ainda era uma zona elegante da cidade. Ao longo dos anos, a cidade foi invadida pelo turismo, os preços dos imóveis dispararam, e a maioria dos moradores venderam as suas casas, e mudaram-se para T…, uma pequena localidade a norte da cidade.

O nosso carro arranca à primeira, e conduzo-nos para norte pelo meio do trânsito em hora de ponta.

Esta manhã aluguei um modelo dos anos 80 que cheira a cera, rosmaninho, e desinfetante de urinol. Aluga um carro adequado, exigiu Eva. Um Mercedes. Sim, um Mercedes é um carro adequado. Precisamos de um modelo antigo, algo com dez anos ou mais. Especifica ela. Esse é um carro que demonstra dinheiro “velho”. Não podemos aparecer com uma coisa daquelas, diz-me Eva, apontando vagamente na direção do carro japonês que tínhamos conduzido até esta manhã.

É um carro de aluguer, disse-lhe eu. Um carro é um carro.

Um minúsculo carro japonês alugado é completamente desajustado em T…, diz-me Eva, irritada com a minha casualidade, e perante a importância de projetarmos uma elevada imagem social.

Saímos da cidade. A autoestrada que leva ao norte é ampla, moderna, bem pavimentada e segura, em agudo contraste com a estrada que substitui: uma artéria esburacada de duas vias que mal conseguia drenar o trânsito. O motor do Mercedes ruge com um gargarejo rouco quando carrego no acelerador, e engato as mudanças mais altas. O carro trepida com a velocidade. Carros mais novos ultrapassam-nos sem esforço. Tenho saudades imediatas do nosso pequeno carro japonês de aluguer.

Poderias lembrar-me novamente de quem são estas tuas amigas, peço-lhe.

Éramos vizinhos e crescemos juntas. Os pais delas são de famílias antigas. Nobreza. Diz-me melancolicamente. As nossas famílias voltaram a encontrar-se quando fomos para São Paulo. Brincávamos juntos quando lá morávamos, íamos à escola juntas, éramos bastante próximas. Percebes? As nossas famílias pertenciam ao mesmo círculo social, diz-me como se estivesse dragando memórias do seu mais profundo passado.

Foram tempos turbulentos, tempos de transição. Lembro-me dos anos depois do antigo regime ter caído, disse-lhe.

Em boa verdade, a minha memória daqueles tempos inclui uma sensação de transição, despida de turbulência. Lembro-me que o antigo regime foi substituído por um de esquerda, e que as crianças que iam de motorista para a escola deixaram de aparecer nas aulas, e que as suas famílias deixaram o país com receio de uma onda vermelha que nunca veio. Famílias como a minha, sem história ou descrição, acharam-se subitamente com oportunidades que lhes tinham estado vedadas no antigo regime.

As amigas de Eva eram admiradas e invejadas, eram as meninas com quem todos queriam ser vistos. Éramos boas amigas, conta a Eva.

O que Eva não me diz, mas que consigo inferir por conversas com a família e com alguns amigos dela, é que, onde quer que fossem, estes exilados articulavam todos os seus preconceitos mesquinhos, as suas arrogâncias despidas de curiosidade, e vícios sociais obscuros num símile da sua prévia vida social, completa com os seus rituais de privilégio, panelinhas, linguagem velada e tudo o que eles poderiam reunir, mas que excluía sempre a plebe.

Durante o exílio, limitaram-se a esperar que o País lhes permitisse regressar, após o que, ao regressarem, transplantaram os seus hábitos sociais entretanto calcificados. Mas o País tinha mudado e regressaram para um mundo novo com apenas vagas referências àquele que tinham deixado. Desorientados na nova ordem social, e incapazes adquirir uma posição nos novos estratos superiores, quedaram-se desorientados e carrancudos, perenemente a marinar numa mistura de mau fel e recriminação. A família de Eva inseriu-se neste grupo.

Eva e eu conhecemo-nos um ano depois de a família dela ter regressado da América do Sul. Conhecemo-nos na Universidade, por meio de amigos, e depois numa festa ou outra, e apegámo-nos um ao outro como se tal nos norteasse a vida. Pareceu-nos que sim, e casámo-nos. Passado pouco tempo partimos para a Califórnia a completar os nossos estudos. Partimos tão depressa que nunca tivemos tempo de medir o espaço que nos separava, um espaço abismal que se tornou mais evidente quando nos unimos na agrura de construir uma vida numa terra estranha. As nossas décadas juntos são uma prova do sucesso da inércia no seu sentido mais empírico.

O carro vai passando pelas mudanças mais baixas enquanto reduzo a velocidade. Estamos a sair da autoestrada e passamos a veredas estreitas, esburacadas, ladeadas por muros de alvenaria alta e decrépita. Erva cresce nas bermas com um descarado entusiasmo.

Um ocasional topo de colina permite-nos ver para além dos muros: principalmente campos por tratar, cobertos aqui e ali por todos o tipo de arbustos, tufos de erva e espinheiros. À distância avistamos casas senhoriais isoladas, rodeadas por áreas de cascalho, e por uma jardinagem hesitante e desordenada, algumas têm piscina, a maioria tem um carro de marca alemã estacionado no empedrado.

Eva ainda está a falar sobre o seu relacionamento com estas amigas. Os seus curtos silêncios, e os a exatidão dos pormenores nas suas descrições sugerem memórias contaminadas pelo tempo, distância e intenção. Ela não vê as amigas há décadas. Décadas em que a vida delas amigas se desdobrou numa sociedade que já não se segmenta com a mesma rigidez de quando emigrámos, e em que os sinais exteriores de riqueza e poder já não são interpretados da mesma forma. Não consigo distinguir as suas intenções, a não ser que Eva acredite que a posição social pode ser alcançada por osmose, e que ela pode recapturar o seu status por mera exposição a estas amigas.

De certo de que elas ficaram surpreendidas quando as contactaste, pergunto-lhe.

Foi engraçado. Fizeram aquela brincadeira de fingir que não se lembravam de mim, disse-me. É natural depois de todos estes anos, mas falámos alguns nomes em comum, de datas, de lugares e elas lembraram-se de tudo.

E porque as vais encontrar depois de todos estes anos, pergunto? Acho interessante dado que elas não se lembravam de ti.

Eva remeteu-se ao silêncio, a olhar para os buracos na estrada à nossa frente.

Acho que quero reanimar um período da minha vida em que tudo estava perfeitamente articulado, onde tudo e todos tinham o seu lugar bem definido, responde-me.

Um período em que eras feliz. Arrisco, e arrependo-me imediatamente, já que nunca nos sentimos realmente felizes juntos. Esta é a verdade surda em que ambos evitamos tocar.

Eva ignora o meu comentário. Eu era popular, tínhamos muito dinheiro e poucas preocupações. O futuro estava cheio de promessa, e tudo isso era importante para uma miúda no limiar da adolescência. Disse-me.

Por trás de nós o sol põe-se, e o crepúsculo começa a apagar os pormenores do mundo ao nosso redor.

Estamos a chegar perto do restaurante, digo-lhe. Ela fica em silêncio, e olha fixamente adiante, para a profundez da escuridão além do alcance dos faróis.

As paredes que ladeiam a estrada dão lugar a casas de aldeia caiadas de branco. Sinto alívio na diminuição da claustrofobia causada pelas paredes. O pavimento é de paralelepípedos barulhentos. Conduzo lentamente até uma pequena praça na aldeia. As luzes anémicas da rua sugerem-me que vire à esquerda. O caminho é estreito, ladeado por paredes brancas imaculadas. Chegamos a uma pequena praça transformada em estacionamento improvisado. Estaciono perto da estrada. O nosso Mercedes está rodeado por carros sensatos e económicos. Eva não vê o contraste, está expectante, alheia ao frio e à humidade da noite.

O restaurante situa-se num antigo lagar com uma cozinha aberta a ocupar a parede mais distante. A decoração orienta a transição do lagar de verdadeira instalação agrícola para uma noção nouveau riche de rusticidade.

A amiga de Eva está sentada numa mesa ao fundo da sala. Pára de mastigar uma côdea de pão, e olha para nós numa saudação indiferente. Eva curva-se para a beijar, e eu ofereço-lhe um aperto de mão deliberadamente flácido. A amiga hesita na resposta.

O meu marido, explica Eva, enquanto a amiga me olha de cima a baixo. Fico à espera que a curiosidade a faça arregaçar uma sobrancelha, mas oferece-me apenas um sorriso. Veste uma camisa branca limpa, engomada, rígida e bem gasta, cujos ângulos e vincos lhe acentuam os traços assexuados. Usa brincos compridos de filigrana que lhe captam o reflexo do cabelo loiro. Quando estende a mão para outro pedaço de côdea reparo-lhe nas unhas atrofiadas, mas bem cuidadas. Tem um aspeto discreto, em contraste com Eva que capta a atenção da sala.

O teu marido? A tua irmã? Pergunta-lhe Eva.

Está ocupado, diz-lhe a amiga sem mais nenhuma tentativa de explicação. A minha irmã vem mais tarde, acrescentou, antes de continuar a mastigar a côdea.

Peito de novilho. Devemos comer peito, diz a amiga sem olhar para nós ou para o menu. Eva olha para mim, sorri e concorda com a amiga. Peço bacalhau.

Fazemos o nosso pedido, e mando vir uma garrafa de vinho tinto antes que elas tenham tempo de consultar o cardápio de vinhos.

E depois fico invisível durante os primeiros minutos de conversa. Na verdade, esta conversa rapidamente se transforma em pouco mais do que dois solilóquios paralelos, amarrados um ao outro por uma sincronia de factos fortuitos.

Percebo que o pai da amiga de Eva era um industrial, e o da Eva era engenheiro, mas não me é claro se os dois trabalharam juntos. Eva diz que sim, mas a amiga afirma não saber se tal foi o caso. Deduzo que o pai de Eva trabalhou na fábrica de que o pai da amiga era dono.

Eva não se consegue lembrar de outros amigos com clareza, e a amiga não se consegue lembrar de que amigos tinham em comum. Concordam que frequentaram as mesmas escolas desde a primária ao secundário, e de terem sido das mesmas turmas, mas aí param as memórias comuns já que a memória de Eva capturou eventos dos quais a amiga não tem lembrança.

A comunidade de expatriados era maior do que pensávamos. Muitas pessoas moviam-se nos mesmos círculos, mesmo sem aperceberem disso, ou sem manterem uma memória clara do seu meio social. Oferece a Eva como vaga explicação.

A irmã da amiga chega ao mesmo tempo que a comida. É mais alta que a irmã, usa brincos do mesmo padrão que os da irmã. Parece ter entalado a sua figura numa camisa branca e num casaco azul ambos um número abaixo do desejado. Tem uns dedos longos e unhas bem tratadas, e pede desculpa pelo marido não se nos poder juntar. Atira as chaves do carro para a borda da mesa, e senta-se sem se preocupar em cumprimentos mais formais.

Permanece silenciosa enquanto Eva e a irmã a põem ao corrente da conversa.

O nosso jantar é servido, as porções são exuberantes. O meu bacalhau, hirto e pálido espalha-se por mais de metade do prato, foi comida de gente comum e pouco sofisticada. O peito de novilho parece caro, inerte e rodeado de batatas fritas e verduras irreconhecíveis.

A irmã serve-se de um pouco de carne e de batatas fritas, e começa a mastigar, enquanto Eva e a amiga continuam a tentar fazer as suas memórias coincidirem.

Lembras-te da nossa casa? Do nosso quintal com as árvores altas de manga, e as limas que cresciam acima de uns arbustos raquíticos? Pergunta Eva. A amiga olha para ela por uns dois segundos, encolhe os ombros e volta a esculpir um pedaço de carne.

Costumávamos brincar às escondidas e à apanhada. Brincávamos sempre ao meio da tarde quando os adultos se escondiam do calor. Lembras-te? Continuou Eva.

A amiga pega numa batata frita e morde-a.

Lembro-me de brincar num jardim com sombra quando morávamos em São Paulo, acrescenta a irmã, não sei se era a tua casa. Lembro-me de muitos miúdos, e de beber chá gelado ao fim do dia, quando acabava a brincadeira, e antes de voltarmos para casa.

Não era a casa da Eva, era a dos Santa-Clara, corrige a amiga de Eva, que se vira para ela e pergunta se se lembra de brincar com as Santa-Clara.

Eva cora, a face brilha à luz amarela da sala. Estende a mão para o copo e dá um pequeno trago no vinho. Lembro-me delas, sim. Não brincávamos muito juntas. Responde.

Perdemos-lhes o rasto. Foram para a Suíça, e penso que ainda lá vivem. Precisamos entrar em contacto com elas, claro. Diz a amiga de Eva. O pai delas abriu lá empresa financeira. Era esse sempre o seu métier.

A nossa escola era divertida. Lembro-me dos professores e dos outros miúdos. Diz Eva a reorientar a conversa para a sua rota original.

A amiga mastiga o último pedaço de côdea, e num trago engole o resto do vinho que tinha no copo. Sirvo-me do último resto decente ainda na garrafa. A irmã gesticula para o seu copo, e sirvo-lhe o vinho com pé do fundo da garrafa. Os olhos dela chispam na minha direção. Sento-me direito e sorrio.

Nem a amiga de Eva nem a irmã têm memórias solidas ou positivas da escola em São Paulo. Fica claro que o grupo de amigos delas não incluía Eva.

Eva debruça-se para a frente, trabalhando diligentemente no seu prato de carne, batatas e tristes verduras.

Reduzo-me ao silêncio enquanto elas terminam as suas refeições.

A amiga de Eva nada pergunta sobre a nossa vida, ou sobre a família de Eva. É um tópico de que podem já ter falado ao telefone quando marcavam o jantar, ou talvez não. Saboreio lentamente o último gole de vinho.

Eva relembra a época em que ia ao apartamento das amigas passar as tardes de sábado a brincar. A sua descrição é vivida, quase literária e atrai-me a atenção, bem como as das amigas. Imagino estas miúdas pré-púberes em jeans e leves camisas de Verão, aos saltos num apartamento que devia ser maior do que a maioria das casas de outras pessoas.

Os nossos cafés chegam. Ninguém quer sobremesa e a refeição termina. A amiga de Eva acena-me levemente em gratidão quando faço menção de pagar a conta.

Lembro-me da velha empregada que cuidava de nós em vossa casa. Ficava fascinada com as histórias que ela nos contava sobre ter crescido na selva, dos costumes dos Índios, e das lendas que nos contava quando nos cansávamos de brincar. Diz a Eva.

A amiga sorri. A nossa empregada era jovem, negra e Baiana, do litoral. Diz-nos com alguma hesitação. A irmã afasta-se da mesa para nos tomar melhor a vista.

Não tenho memória absolutamente nenhuma de vires brincar a nossa casa, nem de quase nada do que descreves. Acho que não nos víamos assim tanto, ou que convivíamos muito fora das aulas. Diz-nos.

A irmã acena em concordância.

O olhar de Eva está fixo na sua chávena de café.

Saímos. Os campos em nosso redor cheiram a palha seca e a mofo e a velharias. Lágrimas rolam pelo rosto de Eva. A noite sem luar esvazia o mundo de forma, deixando um vazio que as nossas mentes imediatamente atravancam. Eva dá-me a mão.

Adelino de Almeida
Novembro, 2021

Fotos de Manuel Rosário

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Escrito por

Nasceu e cresceu em Lisboa, doutorou-se em Engenharia de Estruturas na University of Colorado at Boulder, e depois de décadas de uma carreira peripatética em consultoria de gestão, tenta agora reinventar-se como escritor e tem para publicação a sua primeira novela, The Sublime Eucharist of Alfred Packer.

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