De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Se um biólogo ou etologista se referir ao leão mau, comendo a pobre gazela, todos nos apercebemos imediatamente que ou o homem é maluco, ou se está a dirigir a crianças. Julgamentos morais e de valor não têm lugar em ciência, mas apenas na aplicação prática da ciência.

Em assuntos sociais e económicos a carga moralista é omnipresente e geralmente obscurece o processo de deslindar as relações causais, que é o objectivo do estudo desses mesmos assuntos. Keynes referiu-se à imoralidade de salários miseráveis, mas o que é esclarecedor na sua análise é o demonstrar do facto que salários baixos levam a baixa procura agregada, resultando na acumulação de stocks e desaceleração no escoamento de toda a produção de bens e serviços, deflação, depressão. Sem moralismos. Salários miseráveis são maus para a economia, ponto final.

Não há assunto mais ambíguo do que o da Ética e Moral. De carga emotiva elevada, varia com os países, culturas e religiões. Dentro de cada um destes universos, varia de pessoa para pessoa, sobretudo quando se trata de julgamentos particulares e específicos. Há morais Religiosas e Seculares, Utilitárias e Deontológicas, Aristotélicas e Confucionistas, Absolutistas e Relativistas, Fatalistas e Deterministas, Retributivas e Distributivas, Naturais e Sociais, etc e etc. Um exercício intrigante é apresentar casos concretos e complicados envolvendo julgamentos de valor. A variação é enorme, mesmo entre pessoas, pertencendo ao mesmo universo. Não sabemos como julgar , avaliar, hierarquizar quando enfrentamos este tipo de problemas. Mas sentimos no estômago, quando o desenlace ofende a nossa opinião, mesmo e apesar de essa opinião ser incoerente e mal estruturada.

O que se segue pertence ao mundo do estômago. Boa digestão.

O maior retalhista dos EUA é a Wal-Mart, cujas receitas brutas o ano passado foram de 320 BILIÕES de dólares. Os salários pagos aos aos seus “associados” (termo precioso com que a firma se refere aos seus empregados) são de tal maneira miseráveis, a maioria em salário mínimo, que a empresa lhes oferece um curso instrutivo sobre o que fazer para concorrer aos talões de comida (Food Stamps) que o governo faculta às populações indigentes. Há actualmente 47 MILHÕES de americanos em Food Stamps. A população total de Espanha, ou se preferirem, a população combinada da Suécia, Noruega, Dinamarca, Suiça, Finlândia, Portugal e (sobram-me 4 milhões) Nova Zelândia.

Também da Wal-Mart (e da AT&T, Dow Chemical, Nestlé, Walt Disney, etc) é a política de seguros de vida dos empregados, a chamada Corporate-Owned Life Insurance (COLI). Do gerente à mulher da limpeza, todos têm seguro de vida pago pela companhia e com a companhia nomeada como única beneficiária. Se demorarem muito tempo a falecer e entretanto já não trabalharem para a firma, no problem. Os prémios continuam a ser pagos e o segurado é seguido para o resto da vida até ao desenlace final. Então a companhia recebe os 300 mil dólares e nada é pago à família do falecido. Os prémios pagos descontam nos tributos fiscais e o montante final é livre de impostos. A maioria dos “associados” não faz a mínima ideia que esta política existe. Em alguns Estados nos EU, as companhias seguram também as mulheres e filhos do segurado. A partir de 2006 o congresso tem tentado limitar este filão, mas a coisa é complexa e os interesses envolvidos poderosos. Os principais bancos dos EUA (Bank of America e JP Morgan Chase) consideravam recentemente, alargar a iniciativa para além dos seus empregados, e segurar também os portadores de cartões de crédito e os clientes com contas no banco.

Se um qualquer cidadão americano for apanhado com cocaína apanha pena de prisão. Se reincidir, arrisca-se a passar o resto da vida atrás das grades. Quando o enorme banco HSBC foi apanhado a lavar o dinheiro dos reis da droga mexicanos, envolvendo quantias entre 800 milhões e um bilião de dólares, nem um só executivo ou empregado foi preso. Pagaram multa. Foi a fatia do negócio que o governo cobrou.

Alavancado até ao pescoço, um grupo financeiro (Wasserstein & Co) compra uma companhia retalhista de sucesso (Harry and David), endividam-na em milhões para pagar alcavalas ao grupo financeiro. Quando a companhia retalhista abre falência vendem o que resta, despedem os empregados, renegam as pensões de reforma e guardam os lucros. Uma legislação complacente soa como musica de fundo.

Apesar de a American Airlines ter no banco dinheiro suficiente para pagar as dívidas, a gerência decidiu abrir falência porque os lucros ultimamente não satisfaziam as expectativas dos accionistas. Chama-se Falência Estratégica. Falência deliberada para escamotear obrigações financeiras. É considerado o cúmulo da sofisticação contabilística. Quando o cidadão comum faz o mesmo com o empréstimo bancário referente a sua casa, fica com cadastro financeiro destruído, e é considerado um trapaceiro.

A Luisiana é a capital mundial do encarceramento penal. Em termos de percentagem, a média de presos por cem mil habitantes é o dobro do resto dos EUA, três vezes a do Irão, sete vezes a da China e dez vezes a da Alemanha. A Luisiana é campeã das sentenças de prisão perpétua, e um cheque sem cobertura pode levar a dez anos de prisão. O sistema prisional é uma empresa privada com fins lucrativos e entre os accionistas há sherifes, juizes e advogados locais.

De maneira que é assim. Moralista eu? Sofro é de problemas de estômago.

 

José Luís Vaz Carneiro
solipso52@aol.com
Maio, 2013

morais imorais
morais imorais

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Curso em Medicina FML 1975.  Clínica Geral em África, 3 anos. Residência em Medicina EUA, Mount Sinai School of Medicine, Board certified. Hospitalista por 20 anos em hospitais dos EUA, reformado. Professor Agregado de Medicina, ano lectivo 1998 Yale University. Curso de Finanças e Banca Prof Perry Mehrling. Hobbies~Guitarra Clássica, Economia, História, Arte, etc

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