De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

4 de Outubro, Israel

O que gosto mesmo é de viajar sem nada programado. Nem carrinhas, nem táxis, nem carros de aluguer. Apanhámos o comboio de Tel Aviv para Jerusalém. Aquele desafio perante uma escrita que não sabemos ler, uma língua que não conseguimos entender. A realidade? A que se vê na fotografia. Sentado mesmo mesmo à minha frente. Sem mais! Mete medo? Nenhum. Só estupefacção.

Sem querer entrar na política, na razão, nos direitos de quem ganhou ou de quem perdeu. Um pássaro na gaiola, seja ela dourada ou não, será sempre uma ave de asas cortadas. Aqui, na fronteira com a Faixa de Gaza, ao som dos intermináveis e constantes tiros de treino, uns não podem sair, outros têm de se esconder e proteger.

5 de Outubro, Jerusalém

Fomos atrás da multidão. Sem saber para onde. Só atrás. No meio. Envolvidas. Eram milhares. Milhares de mães de lenços ou perucas na cabeça. Milhares de crianças, seis, sete ou oito por casal. Um mar de gente a ir. A rir, a brincar, a conversar. Atrás de nós ele tropeçou e caiu. Do alto do seu chapéu preto coberto de pêlo castanho. Do alto do seu casaco preto também, de cetim adamascado. Do alto das suas patilhas, longas e aos caracóis. Como todos por aqui. Os óculos já não estavam no nariz. Agarramo-lo. E ele recusou!

Oh mulheres impuras, não me tocais. Antes magoado no chão que a salvo e em pé. Chegadas ao destino quase nem conseguimos entrar.

6 de Outubro, a Gordinha

Havia o jovem casal alemão. Altos, louros e bonitos.

Também estavam as velhotas Filipinas. Cheias de creme opaco na cara, chapéus de abas largas, não fosse o sol marcar as caras envelhecidas.

As duas jovens francesas falavam alto, riam-se muito, mas sucumbiram ao primeiro solavanco do autocarro. Eram 3 da manhã.

E havia a Gordinha. Gordinha não. Gorda mesmo. Enorme! Já viste aquela tão gorda, comentei? Andava com as pernas abertas, o braços afastados do corpo a balançar, via-se que lhe custava respirar.

Mas a gordinha tinha dois filhos, como mais tarde vim a saber, e tinha um namorado novo. Jovem, magro, bonito, muito sorridente. Ela subiu a escarpa íngreme a pé. 50 minutos de esforço intenso. Nós não!

Ela desceu no teleférico, apesar das vertigens, e tivemos de a distrair durante o trajecto para que não se concentrasse na sua dificuldade. Inspira, expira. Ela subiu a cascata, os pés nas pedras, no seu biquini preto e branco. Nós não!

Ela ria e sorria, radiante com a superação dos desafios. Orgulha-te de ti própria, fui-lhe dizendo, segurando-lhe na mão. Conseguiste!

Ai amor! Ao que obrigas. Mas ai nós, também. Continuamos a julgar pelo que vamos vendo. Grande lição a que recebemos. Obrigada gordinha. Acho que nunca me vou esquecer de ti.

6 de Outubro, um assunto de ETAR

Agora uma história curiosa…

1. Os muros e a vedação que separam a Faixa de Gaza de Israel servem para impedir que pessoas e bens passem de um lado para o outro. (Facto muito resumido) 2. Israel vive da água potável que transforma nas suas centrais de dessalinização. 3. Uma dessas centrais está junto da fronteira entre estas duas nações. 4. Há também, junto da fronteira uma central hidroeléctrica. 5. As ETARs em Gaza precisam de electricidade para funcionar Então imaginem lá que água bombaria a Central dessalinizadora se os Israelitas não fornecessem electricidade aos Palestinianos.. A política é isto. Negociação!

7 de Outubro, ataque

Já prontas para sair, ouvimos a sirene de emergência tocar. E lá ao fundo um estrondo.

Eu fico aqui no quarto, diz a Gabriela.

Eu vou lá abaixo, digo eu.

Fomos as duas. Nada se passava na movimentada recepção do hotel. Pedimos um taxi e de novo as sirenes a tocar. Mais estrondos. Um choque no peito, um coração apertado.

Não saias do hotel, vai para o abrigo, diz-me por WhatsApp o nosso extraordinário guia de ontem, apesar de que não costumam atacar Jerusalem.  Fomos na mesma. E atacaram. Ou tentaram. Descemos o Monte das Oliveiras ora saltando de campa em campa, ora parando e olhando para o céu. Drones a serem abatidos. Sirenes a tocar, um clarão, um estrondo. Parece trovoada. Sem chuva. E outro. E outro. Ao fundo ouvem-se tiros. Já na Cidade Velha, muitos militares em estado de alerta. Passagens vedadas, não podes sair por aqui, dizem-me. Nem pergunto porquê.

Mas sabem o que é que me tocou? Os gritos de alegria, as buzinadelas, aquelas voltas com a língua que as mulheres árabes fazem quando se manifestam. Isso sim. Ataques e mortes não se celebram. Acho eu.

Agora alguns acasos:

– Quarta feira estivemos na fronteira da Faixa de Gaza. Mas foi quarta feira. Não foi hoje.

– Hoje estava prevista uma ida a Hebron com um motorista palestiniano. Ver e ouvir o lado de lá, ver e ouvir um campo de refugiados. Algo me travou.

– Estou no hotel. A fazer o quê? Tudo está tranquilo lá fora, as sirenes já não tocam há mais de quatro horas. Talvez ainda vá lá fora. Talvez não..

– A minha crónica de hoje era outra, mas acho que fica para mais tarde. Esta era mais oportuna..

Bjs

Estou bem. Muito bem

8 de Outubro, Israel hoje

A minha crónica de hoje é curta. Os meus pensamentos vão para os Israelitas mortos e desaparecidos. Os meus pensamentos vão para o povo palestiniano. Nas sei o suficiente sobre este assunto para dar a minha opinião. E não a quero dar. Também não serviria de nada. Hoje, depois da pressão que tivemos para conseguir sair de Israel, choro por uns e por outros.

11 de Outubro

Já escapada ao caos que certamente se vive no aeroporto, envio aqui a crónica que estava escrita para ser enviada no sábado. Não sei se oportuno, mas eu adorei-a.

E agora uma história que conta que também as há com finais felizes. Estamos em 1948, partição do território palestiniano. De um lado, a muralha da cidade santa, ocupada pela Jordânia. A 30 metros, passada a terra de ninguém e já em Israel, o convento das freiras francesas. Virou hotel e estamos hospedadas nele. Coitada da freira! Deixou cair a dentadura em terra de ninguém! O convento contactou as Nações Unidas. As UN contactaram o governo Jordano e o governo de Israel. E lá se arranjaram para que se fossem buscar os dentes da Senhora. E querem saber mais? Para que esta, vaidosa, não saísse à rua desdentada, trouxe uma prótese emprestada.

13 de Outubro, corrida para a vida

As notícias vindas de Portugal diziam que tinham sido apontados Rockets ao aeroporto. O painel dos voos estava todo encarnado. Canceled. Delayed. O voo para o Dubai, cujos dois últimos lugares tínhamos conseguido por milagre, saía dentro de 45 minutos. Tínhamos de passar a segurança, outra segurança, o controlo dos passaportes os longos corredores até à porta de embarque. Saltei vedações, tropecei nas filas que se formavam, cortei as serpentinas a direito, embrulhei a diplomacia e soltei a minha fúria perante tudo e todos. Corri pela vida. Corri para a vida.

Estava em causa a minha sobrevivência. A nossa.

Ofegantes, conseguimos.

Texto e fotos de Benedita Vasconcellos
Outubro, 2023

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Escrito por

Nasci em Lisboa, estudei na Escola Alemã. Tenho três filhos espalhados pelo mundo que adoro visitar, para além dos outros lugares no mundo a que tento chegar. Dona e gerente de um Hostel em Lisboa.

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