De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Fim de festa

A noite cai e com ela o frio.

Ontem não recolheram o lixo, era feriado, primeiro dia do ano. Os caixotes estão lindos, enfeitados até cima de papéis coloridos, papel de prata e novelos de fios prateados e dourados.

Há uma certa beleza, uma certa poesia ligada a este fim de festas. Os restaurantes estão fechados, as pessoas vão para casa, os idosos voltam para a sua solidão. Fizeram de “velhos de serviço” nos dias de Natal, em casa de familiares. Acabou. Agora, só para o ano.

Deram-lhes meias de lã e pantufas, para ficarem em casa com os pés quentes. Fizeram-nos abrir uma data de embrulhos. A encenação do costume. Ainda tiveram esperança de receber uma coisinha que lhes ficasse bem, para sair, para se divertirem…mas não, só coisas para ficar em casa. Para acabar de viver…

Bolas, fartos de casa estão eles! Ao menos, enquanto ainda andam bem, um casaquinho mais bonito, mais novo, para irem ao café, ao jardim…, mas não, querem lá saber!  Nem uma água de colónia, nem um baton! Por mim, uma écharpe bonita era bem aceite…

Vá lá, houve uma neta que me deu uma caixa de chocolates, maravilha, todas as noites vou comer um. Ao menos, enquanto durarem, vou ter umas noites consoladas a ver televisão. O que me apetecia mesmo, era acompanhar com um copinho de branco fresquinho! Talvez faça esticar o dinheiro na próxima ida às compras…

Mas sim, estou aquecida, com os chinelos e as meias da loja do chinês. Guardei os restos  do bolo rei e sonhos, que me deram, no frigorífico. Tenho de os fazer render. Tão cedo mais ninguém me fala, nem filho nem filha. Cumpriram os seus deveres filiais nos dias de Natal. Acabou por este ano.

Vou entrar no buraco escuro do tempo e do afecto.

Nos próximos doze meses, receberei volta e meia um telefonema seco, «então está boa? Não tem dito nada…» e aí nem respondo, falo todas as semanas e ninguém atende…«Vá, trate-se, vá dizendo qualquer coisa, aqueça-se que vem aí o frio!»

Ai sim? Vem aí o frio? Já cá ando há oitenta e dois anos, o frio vem todos os meses de Janeiro, deixa-te de conversas da treta. Pergunta antes, se eu tenho alguma coisa de jeito para comer até ao fim do mês. Pergunta, se me sinto muito só. Pergunta, se tenho alguém com quem falar. Queres saber se a Rosinha do prédio ao lado ainda cá anda? Não, não te interessa…

Sim, a Rosinha partiu, minha vizinha e amiga há sessenta anos. A Rosinha, o Sr. Martins da mercearia, a mulher…Tão meus amigos! A Lurdes, oh, essa não anda nada. Já não sai de casa. Vou lá volta e meia levar-lhe umas coisinhas. Chora muito, não quer ir para um lar, mas o filho está muito inclinado para aí. Coitada da Lurdes. Era tão alegre! Diz que foi criada num orfanato, não quer acabar no mesmo ambiente. Quer morrer na casinha dela que lhe custou tanto a pagar.

E eu?  Eu vou estando bem, mas tenho medo, às vezes tenho medo. Bem, não quero pensar. Quando não puder andar, tratar de mim, como vai ser ? Os filhos  longe, lá para a Amadora, como vai ser? Os netos já com filhos! A Bela, a minha mais velha, gostava muito de mim, gostava, mas tem que fazer, vive com o namorado, já tem um bébé. Nunca me vê, mas quando nos encontramos dá-me um abraço mesmo muito apertado. E esse abraço é todo o afecto que recebo. Tenho que o fazer render bem. Ao abraço e ao bolo rei!

Às vezes, envio-lhe um beijinho por whatsApp e ela responde com um emoji, um grande coração encarnado a palpitar. Abençoada, valeu a pena tudo o que fiz por ela. O que eu andava com ela ao colo, para a deixar na creche… Chorava, não queria o chão. Minha neta, mas não posso esperar nada dela, não tem tempo…

Gostava tanto de ir de repente, gostava de, um dia, me transformar em fumo.

Vou andando pelas ruas do meu bairro, falando com quem ainda circula, do meu tempo e olhando para o whatsApp, não vá lá estar um grande coração a palpitar. Coração que me faz sorrir, me alimenta, me faz sentir muito menos só…

Manuela Carona
Janeiro, 2024

Fotos de Manuel Rosário

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Escrito por

Actriz, nasceu em 1947, natural do Porto, vive em Alfama

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Últimos comentários
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    Muito bom!!!

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      Obrigado. Muito gratificante vindo da sua parte

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    Parabéns Manuela por este texto cheio de amargura irónica que tão bem retrata uma triste realidade.

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      Obrigado Isabel Almasque

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    Triste realidade.
    Comovente.
    Obrigada