De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Eu e o Outro

Estávamos todos sentados na varanda do Hotel Xaguate, olhando nuvens que, da ilha do Fogo, ocorriam a juntar-se a outras que se encastelam sempre sobre a ilha Brava. O mar estava estanhado e lá no fundo, tocando o horizonte, o sol banhava-se do calor do dia, avermelhando tudo.

 A paisagem era de uma beleza indescritível e nós, que depois do banho em que laváramos o suor e a poeira negra do vulcão,  rescendíamos ao doce cheiro a sabonete e a loção da barba, nós, preguiçosamente sentados, descansávamos na beleza do mar os olhos cansados da beleza da terra.

Mudos, afogávamos em Gin e em Uisqui as ideias que em cada um bailavam, numa inútil tentativa de as agarrarmos para fazermos as nossas histórias. Foi o Victor Rato quem primeiro falou: – “Não hei-de arranjar nunca palavras suficientes para descrever tudo isto aos leitores lá do Diário de Notícias! Só visto!”

– “Hum”, grunhiu o Rui Cabral do Expresso, que falava pouco e via muito. Lá em baixo o Bueno de Matos torrava ao sol, de rabo para o ar, na borda da piscina, aproveitando ainda os últimos raios, enquanto o Belmiro Vieira, esparramado entre mim e o Álvaro Tavares, o fotógrafo do Diário de Notícias, sorria um sorriso cavo com o seu ar de bonacheirão.

O Belmiro era caboverdeano e tinha irmãos e família por estas paragens, muitos anos de jornalismo em Angola, vários já de jornalismo em Lisboa, alguns de Correio de Manhã, gota nas pernas e apetite implacável por todos os pratos que metessem feijão.

– “Gosto muito do mar – disse eu – e ainda não desisti de ir à Brava de barco à vela…”

– “No meu tempo as viagens entre as ilhas eram feitas em velhos veleiros – fez o Belmiro alongando o olhar pelo mar fora como quem traz de longe velhas recordações de infância, cobertas pelo pó do Tempo e gastas pelo uso da Vida, depois continuou na sua voz calma e baixa – Lembro-me de uma viagem que fiz há muitos anos para ir a S. Vicente fazer o exame do sétimo ano. Como sabem nasci na Praia, sou “badio”, e nesse tempo tínhamos de ir para S. Vicente se queríamos fazer sétimo. Passávamos lá pelo menos um ano, para ir de aulas no liceu.

Nessa viagem fui com um colega meu de quem eu era muito amigo, embarcámos no rebocador Bissau já que o Senhor das Areias, o velho navio à vela e a motor que ligava as ilhas, estava, como era frequente, avariado.

Durou três dias a viagem e isto porque foi feita no rebocador. Fôra no Senhor das Areias e demoráramos muito mais tempo. Da praia viemos ao Fogo e daqui fomos à Brava, de onde seguimos para a Boa Vista e desta para o Sal antes de aportamos a S. Vicente. O mar estava mau, em fins de Setembro e Equinócio traz sempre mau mar.

Íamos para aí uns trinta passageiros, alguns deles estudantes como nós e nossos colegas, pois olhem que quase todos enjoaram menos nós os dois! Não me posso esquecer de um colega nosso, o Filipe Menezes, que verde de enjôo pedia ao Comandante que o mandasse atirar ao mar! O Comandante era um português de pele tisnada pelo sol e curtida pelo sal, o resto da tripulação era toda guineense.

As noites passaram-se mal, os enjoados foram dormir para dentro dos baleeiros e nós dois, eu e o outro, dormimos no convés, enrolados numas mantas que tínhamos desencantado junto da tripulação, mas as mantas eram muito curtas e se tapássemos os pés destapávamos a cabeça e para tapar a cabeça ficavam os pés de fora…, mas lá dormimos, bastas vezes batizados pelos salpicos das ondas, é que, sabem?, não havia alojamento para nós.  No bilhete vinha escrito em letra garrafal “Sem direito a alojamento” e mesmo que tivéssemos direito, o Bissau também não tinha camarotes.

Como o mar estava grosso, o rebocador parecia uma sapata a bailar nas ondas e dos enjoados quase ninguém comeu, mas nós os dois mantivemos o apetite e como o nosso farnel não era farto, os marinheiros partilhavam connosco a sua refeição, sempre igual. Foi a primeira vez que comi arroz com óleo de palma. Lembro-me bem de um dos tripulantes, um marinheiro novo e forte, o João Correia, um balanta simpático, que fazia com as mãos bolas de arroz que nos estendia com um sorriso aberto. Comemos e rimos.”

Anoitecera de todo. O Bueno de Matos, da Revista Viajar, abandonara a piscina e viera juntar-se a nós enquanto o José Gonçalves, dos TACV, como vira que tardáramos para o jantar e com a sua infatigável “morabeza” trouxera-nos um prato enorme de perceves gigantescos, mas nada nem ninguém, nem mesmos perceves, conseguiam distrair-nos, de presos que estávamos pelas palavras do Belmiro que prosseguiu o seu monólogo:

– “Aqueles anos eram bem difíceis, estávamos no início da década de 40. A seca aliara-se à Guerra e a Fome matava em Cabo Verde. Não era raro ver-se homem ou mulher deitar-se no chão, por baixo de uma árvore, para ao menos morrer à sombra. Só entre 41 e 43 a Fome matou por cá 30.000 pessoas… nós lá íamos comendo, mas mal. Olhem, a “cachupa” tínhamos de a fazer sem feijão, só com milho cozido, além disso comíamos amendoim e bolacha e um pão de milho tão pesado na digestão que nós, estudantes, lhe chamávamos o “Soco no estômago”. Eu e o outro lá nos íamos safando porque, como éramos muito bons alunos, dávamos explicações e, podem crer, que as nossas explicações eram disputadas! O dinheiro que ganhávamos permita-nos comprar umas latas de “Corned beef” nos barcos que vinham do Porto Grande de S. Vicente. Eu por mim, sempre que podia, comprava latas de leite condensado, abria-as e bebia-as assim mesmo.

Outra coisa que comprávamos nos barcos eram cigarros, fumava-se nessa altura o “Navy Cut” e os “Abdullah”, uns cigarros egípcios fortes e secos. Nós os dois partilhávamos irmãmente os nossos tesouros: latas de conserva e cigarros…

De vez em quando la íamos fazer umas “noites caboverdeanas” com “mornas e coladeiras” e que invariavelmente acabavam no Lombo, no bar de um italiano, a quem chamávamos o “Capiche” e penso que ninguém sabia o nome dele, mas como falava uma algaraviada italo-portuguesa e entre cada duas palavras perguntava se percebíamos, em italiano, claro, ficou a ser o “Capiche” e era lá que terminávamos as nossas noitadas, bem cantados e bem bebidos, alegres e de vez em quando felizes, sempre uma das pequenas do Lombo, menos ocupada com os marinheiros, nos dava uma de “borla”, porque todas sabiam que estudante não tem dinheiro.

Mas o estudo estava acima de tudo porque era a nossa razão de estar ali.

O outro interessava-se muito por políticos e líamos avidamente livros de jornais passados à Censura e outros que a Censura deixava passar. Foi por essa altura que lemos “As Vinhas da Ira” do Steinbeck e devorávamos todos os nomes que apareciam do “Mundo Literário” do Adolfo Casais Monteiro, tomando assim contacto com os escritores José Régio e Alves Redol.”

Vieram chamar-nos para jantar, mas ninguém se mexeu e o Belmiro continuou o seu solilóquio:

– “Não demos nem uma falta, os dois, durante o ano todo, porque reservamos as 14 faltas que a lei permitia, para a partir de 1 de Junho irmos para a “coladeira” na Ribeira Julião, pois era a altura das Festas Joaninas que davam o nome e a fama àquela Ribeira.

Mas quando tocava a estudar, estudávamos a sério e éramos de facto bons alunos. O outro parece-me que estou a ver, tinha uma cabeça grande, mas uma grande cabeça…

Lá chegou, enfim, a altura dos exames e as nossas duas notas, a minha e a do outro, foram as melhores do Liceu de S. Vicente, nesse ano, e olhem que era bem raro as melhores notas serem para “badios”!

Voltámos de barco para a Praia, mas desta vez, feito o exame e com o vento a soprar de pôpa, tudo parecia melhor. Íamos bem felizes, e quando chegámos à Praia, o Governador mandou-nos chamar aos dois. O Governador era o capitão-de-fragata João Figueiredo, aquele que ainda hoje tem o nome na lápide de Escola de Cova Figueira, que vimos quando fomos aos Mosteiros, porque foi ele que a mandou construir.

Lá fomos ao Governador que nos anunciou, que tinha duas bolsas de estudo para irmos para Portugal tirar cursos. Uma das bolsas era para Agronomia e a outra para Veterinária.

Eu disse ao Governador que não estava interessado em nenhuma delas porque tinha feito o sétimo ano de letras e o que queria era tirar Direito.

– “Direito?!” – respondeu-me ele – “Direito? Para criar mais um descontente, não? Não senhor, nada de cursos de Letras que só criam intelectuais contestatários! Cursos técnicos é que são precisos. Cursos Técnicos!”

Eu não aceitei nenhuma das bolsas, o outro aceitou, foi para Agronomia.

Eu não tirei nenhum curso. O outro tirou.

Hoje eu sou jornalista. O outro… o outro mataram-no, há uns anos…

Chama-se Amílcar Cabral.”

 

José Manuel C. V. Cosmelli
Cidade de S. Filipe, Ilha do Fogo, Junho 1985

 

Nota: Este manuscrito foi encontrado nos papéis do “pai  Freudenthal ” e até agora, ainda não conseguimos descobrir quem foi J. M. Cosmelli.  

Fotos de Manuel Rosário ( banner e separadores de texto)

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O jipe parou com um solavanco levantando à nossa volta uma nuvem de poeira. Fôra só de uma escassa centena de metros esta jornada, desde o trapiche do Domingos Santos até aqui. Lá sim, no trapiche, é que eu me entusiasmara e me fartara de tirar fotografias. E fotografei tudo

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