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DÍVIDAS ou E o mundo mediterrânico renascerá…

Sem ter havido uma epidemia ou um cataclismo, e com todos os factores de produção intactos, com os trabalhadores vivos e saudáveis, e com as fábricas e infra-estruturas em pleno funcionamento, em Outubro de 1929 a grande depressão surgiu. Desaceleração de toda a actividade económica, deflação, desemprego generalizado e falências… navios atracados nos portos pela quebra do comércio internacional… e até à entrada na guerra em 1939, foi mais ou menos este o ritmo a que dançou a economia americana. Então os EUA entraram na guerra: durante 4 anos toda a nação se dedicou à produção de objectos destinados a serem destruídos a curto prazo (navios ,aviões, munições) sendo os bens de consumo normal relegados para segunda importância. Nem um só carro foi fabricado em Detroit num dos anos da guerra. Salários e preços congelados, o governo omnipresente. Não estivemos muito longe dos Estados Unidos Socialistas da América. Quando a guerra acabou em 1945 o país viu-se com uma dívida gigantesca e uma população de pobretanas sem carros novos, frigoríficos, ou rádios. Pior estiveram a Alemanha e o Japão, arrasados e na miséria. No entanto não houve problema. Quinze anos depois em 1960, os três países mais ricos do mundo eram os EUA, a Alemanha e o Japão !

Sem a primeira guerra a depressão não teria acontecido, sem a depressão a segunda guerra não teria acontecido e sem a segunda guerra a pujante reconstrução não teria acontecido. E a dívida não foi obstáculo à recuperação dos EUA. Através dum mecanismo de Repressão Financeira (ver Reinhart e Sbrancia) a dívida é de facto parcialmente repudiada e escamoteada ao longo de vários anos (duas ou três décadas). Financial Repression Redux

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Outro exemplo: Quando a Alemanha saiu derrotada da primeira guerra, endividada até ao pescoço e com reparações a pagar, entrou no período de inflação delirante do inicio dos anos 20, que ainda é hoje assunto de menção. O colapso total do dinheiro é apresentado tradicionalmente como sendo o pior desastre que pode acontecer a uma economia nacional. No entanto, todas as dívidas desapareceram com a inflação. E em 1924 a moeda equilibra-se e dez anos depois a Alemanha nazi é o primeiro país ocidental a sair da depressão. Auto-estradas, Volkswagens, bens de consumo abundantes são uma imbatível publicidade aos nazis, em comparação com a frugalidade dos outro países ocidentais. E o esforço de armamento ainda estava para vir, uns anos mais tarde, não tendo muito a ver com o recobro económico em questão.
Depois veio a guerra, o aniquilamento e o renascimento do pós guerra.

E sem a primeira guerra a inflação não teria acontecido, sem a inflação a fabulosa recuperação dos inícios dos anos 30 não teria acontecido, sem a recuperação a segunda guerra não teria acontecido, e sem a guerra a pujante reconstrução dos anos 50-60 não teria acontecido.

A explicação destes factos encadeados, que desafiam totalmente o senso comum e as mirabolantes explicativas da economia clássica, é um exercício fascinante que requer abordagem multidisciplinar para lá do âmbito deste solilóquio, mas uma conclusão parece óbvia: O aniquilamento da dívida é fundamental para a retoma da economia. Veja-se o exemplo recente da Argentina, com taxas de crescimento notáveis após o repúdio da dívida nos anos 90. Se o dinheiro é o lubrificante da actividade económica, a dívida é massa viscosa e pastosa que faz o sistema parar. A eutanásia do rentier*de Keynes não é para já viável, mas poderíamos promover a emasculação do rentier. Seria um princípio…

De maneira que tive uma ideia: Juntem-se Portugal, Espanha, Itália, Grécia. Convidem a Tunísia e Marrocos. Formem a UES (União da Europa do Sul). A moeda será o Meridião (rima com milhão), a dívida será repudiada e voltar-se-á ao Mare Nostrum. E o mundo mediterrânico renascerá. O Papa será o Presidente honorário da união, mas com poderes de veto em assuntos sociais. Não se pode deixar de fora a Igreja de Roma enquanto repositório de saber milenário e como contraponto ao inevitável Confucionismo emergente.

Sabiam que já em 444 antes de Cristo, Nehemiah, judeu e governador da Judeia, confrontado com crise semelhante à nossa, promovia a Lei do Jubileu que estipulava o cancelamento todos os sete anos de toda e qualquer dívida, com a absolvição de todos os devedores por falta de pagamento. E de dívidas percebem os Judeus !

* A definição é mais complexa, mas para efeitos deste artigo Agiota ou Usurário servirão.

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Curso em Medicina FML 1975.  Clínica Geral em África, 3 anos. Residência em Medicina EUA, Mount Sinai School of Medicine, Board certified. Hospitalista por 20 anos em hospitais dos EUA, reformado. Professor Agregado de Medicina, ano lectivo 1998 Yale University. Curso de Finanças e Banca Prof Perry Mehrling. Hobbies~Guitarra Clássica, Economia, História, Arte, etc

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