De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Descobrindo Maputo

Des-cobrindo Maputo

Minnie Freudenthal

Aterrámos em Maputo num domingo, sentimos aquele desajuste domingueiro de quem está fora do calendário e das rotinas da cidade que ajudam a integrar quem um dia ali viveu. Que fazer? Por vezes é favorável não ter memória e assim fui eu, que nunca ali vivi, que sugeri um passeio à Costa do Sol. Foi assim que apanhámos um chapa, bem cheiinho de gente, até à praia que se estendia larga na maré vazia. Ainda era cedo, mas as barracas já se preparavam para servir uma enchente de almoços, na praia coloridas equipes de futebol ocupavam a extensão da areia. Depois dum passeio à procura da água transparente que nunca se chega a encontrar, sentámo-nos à sombra das casuarinas a beber uma Laurentina. Deixámos o olhar seguir o que mais parecia uma coreografia de dança-o-futebol. Nas nossas costas o restaurante e Hotel Costa do Sol, envolvido em andaimes e transparências azuis, fechara uma época. O nosso amigo Manuel Petrakakis, o último proprietário do Hotel, que pertencera desde sempre à sua família, resolvera reformar-se desta actividade.
Aos poucos as famílias dos jogadores de futebol foram chegando, o ruído humano crescendo, os carros enchendo a beira da estrada, as cores girando nas nossas pupilas hipnotizadas por uma nova Costa do Sol.
Ficámos instalados no pequeno Hotel Hoyo Hoyo, no centro da cidade alta, de onde podíamos visitar a cidade a pé em diferentes direcções.
Felizmente, a semana desenrolou-se num projecto que nos incluiu na cidade, que nos integrou o passado em ideias para o futuro e onde o presente escorregou divertido e estimulante.
Mesmo no hall de entrada do pavilhão, uma grande secretaria serve de escritório ao Director da Faculdade de Arquitectura. Como diz Luís Lage “assim vejo tudo o que se passa e todos chegam a mim…” Falou-nos das lindíssimas maquetas que dois artistas Moçambicanos tinham feito para a exposição Maputopia em 2012.
“E onde estão essas maquetas?” Perguntámos.
“Oh! Ali mesmo, por baixo duma secretária do escritório da Ana, todas embrulhadinhas em jornal.”
Não resistimos a desembrulhar uma delas e pensámos que seria um óptimo projecto para os nossos dias em Maputo fotografar os edifícios das maquetas e entrevistar o Júlio Carrilho e Luís Lage, ambos arquitectos e apaixonados pela cidade.
Gravámos a nossa conversa num primeiro andar dos pavilhões da Universidade de Arquitectura de Maputo onde o tagarelar dos alunos entrava pelas janelas e os ruídos da rua nos enquadravam na cidade.
E assim “re-des-cobrimos Maputo”, percorrendo a cidade a pé, deixando as lindas e originais linhas arquitectónicas, marcadas por uma história tão familiar ao Manuel, mergulhar-nos no presente das gentes que agora vivem naquela cidade.
As formas, as cores, o desenho e as vivências das pessoas marcam uma cidade que se espraia monte abaixo até ao porto, ao mercado, à chamada baixa onde o comércio encontrou casa, onde os cafés acolhem conversas e encontros.

Conversa com os arquitectos Júlio Carrilho e Luís Lage sobre as espantosas maquetas da autoria de Dino Jehtá e Humberto feitas para a exposição MAPUTOPIA, em 2012.

 

Vídeos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

Os desafios

Luís Lage

A Minnie e o Mané levaram-nos a novos desafios, na sua presença por aqui, valendo-se da sua disponibilidade e dos olhares por Maputo, desembrulhando maquetas, imagens e desembrulhando-nos na conversa sobre edifícios da cidade.

Connosco já estavam e continuam abertos os desafios de procurar preservar pedaços de cidade e propondo a sua classificação para que no futuro estes pedaços ganhem cada vez mais densidade, marcando no tempo a história de Maputo. Juntamos a isto também os desafios da criação dos instrumentos legais e dos consensos culturais na apropriação do nosso património.

Assim foi a conversa que correu sobre 10 edifícios, dos 30 propostos para classificação, corrida e desprendida, onde trocamos opinião e conceitos sobre cada um deles. Provavelmente poderíamos ter continuado o desafio lançado, com os restantes 20 e ou sobre outros importantes e marcantes objectos e espaços urbanos que caracterizam a cidade.

Fica ainda em suspenso outro desafio que é o de, a partir das inúmeras imagens da cidade e dos seus edifícios, captadas pelos olhares da Minnie e do Mané, publicar-se algo que sele o curto e rico tempo de estadia de férias destes dois grandes amigos meus e de Maputo.

Kanimambo pela oportunidade.

O som das imagens

Júlio Carrilho

O acaso por vezes prega-nos partidas. Lança-nos para elaborações imediatas sobre temas em que as facilidades e a amizade nos “traem”.

A empatia com a realidade que nos rodeia, com o ambiente construído, ganha por vezes tanta força que faz brotar palavras e gestos nem sempre consensuais, nem sempre devidamente medidos. Esta é a virtude da transparência, sermos capazes de uma forma sincera dizer o que nos vai na alma sobre as coisas que nos rodeiam, mesmo que a erudição aparente não seja totalmente documentada. É assim o viver do dia-a-dia do ambiente urbano: olhar para os edifícios e exprimir as palavras que nos sugerem; viver os ambientes e sentir os diferentes confortos com que eles nos envolvem; buscar no passado as referências que transformam os objectos em coisas pertencentes a cada um de nós – um odor, uma imagem, um som, uma lembrança, um gosto ou um desgosto, um prazer ou uma mágoa, um sabor ou um tempero…, a estimular-nos a exuberância e ou a prudência.

Alimentada a semente do entusiasmo, eis-nos a entrar pelo edificado preexistente em Maputo, ou apenas a aproximarmo-nos do limiar do seu significado, nem sempre em consonância com os novos e diferentes modos de habitar.

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Alice Minnie Freudenthal, médica Internista pelo American Board of Internal Medicine e Ordem dos Médicos Portuguesa. Áreas de interesse; neurociência, nutrição, hábitos e treino da mente. Curso de Hipnose clínica pela London School of Clinical Hypnosis. Curso de Mindfulness Based Stress Reduction. Palestras e Workshops de diferentes temas na área da neurociência para instituições académicas, empresas e grupos.

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Últimos Comentários
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    Espantosa esta ideia de desembrulhar as maquetas de cada edifício. As maquetas são maravilhosas nas suas cores berrantes e na sua simultânea ingenuidade e a comparação com a arquitectura real dos edifícios ainda sobreviventes é muito curiosa. Muitos têm a marca indelével das correntes artísticas predominantes da época em que foram construídos: arte-nova e arts-deco, de que a catedral é um exemplar típico. Muito interessante e didático.