De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

D. Amélia costureira

Uma vilória isolada em fins do séc XIX. Toda a gente conhece, respeita e confia na D. Amélia, que tem um atelier de costura. Ocasionalmente a senhora passa por períodos de apertos financeiros. Quando isso acontece e precisa de comprar mercearias, a D. Amélia passa uma nota ao portador dizendo “Vale 5 Escudos” assinado D. Amélia. Em casa, a D. Amélia mantém um registo rigoroso de todas as notinhas. Mal recebe um pagamento quando vende um vestido, a senhora guarda no cofre a quantia em dinheiro correspondente às notas circulantes. E quando as notinhas aparecem de volta a ser redimidas, a D. Amélia tem sempre o dinheiro pronto a ser pago.
Até que um dia um cliente, em pagamento duma costureirice qualquer, lhe apresenta uma das notas dela dizendo “Vale 5 Escudos”. Ela recebeu a nota encantada. Tinha emitido a nota para pagar vegetais, e recebeu a nota por um arranjo num vestido. Tinha acabado de trocar os vegetais por um arranjo num vestido, usando um pedaço de papel emitido por ela. Enquanto rasgava o papel, D. Amélia meditou: tenho agora 5 Escudos no cofre de que não preciso, para redimir uma nota que já não existe. Passou o resto do dia a matutar. Reparou excitada que tinha 5 Escudos a mais, que eram dela, não tendo feito nenhum esforço extra para os ganhar. Sendo D. Amélia humana, desenvolveu inconscientemente um tendência para passar as notinhas nas compras que fazia, sem usar Escudos reais, que se acumulavam no cofre. E arranjou mesmo papel de qualidade durável (por qualquer razão esverdeado), onde escrevia “Vale 5 Escudos” assinado D.Amélia. E as notas circulavam sem problema na comunidade, porque quando o ocasional cidadão desconfiado as apresentava à D. Amélia, eram sempre redimidas prontamente. E no cofre acumulavam-se Escudos. E D. Amélia continuava a guardar religiosamente dinheiro real para cobrir todas e cada uma das notas entretanto emitidas. O Bancamélia SARL nascia.

dona amelia
dona amelia

Façamos uma pausa. A nossa história, que continuará em breve, ilustra singelamente princípios básicos em Teoria Bancária. Até agora temos emissão de Moeda (as notas da D Amélia) com uma correspondência fraccional 1:1 de Reservas (os escudos reais progressivamente guardados à medida que são emitidas notinhas). E depois, temos um exemplo da lei de Gresham. Dinheiro Mau tende a substituir o Bom em circulação.
Continuemos. Dada a intacta reputação do Bancamelia (já sem acento grave para facilitar a impressão do papel timbrado, e me poupar esforço no que estou escrevendo), já quase não haviam notas e moedas em circulação, só notinhas Bancamelia. E como não havia muita gente a aparecer para trocar notinhas por escudos reais, a D. Amélia, que era humana (prova que os banqueiros também são humanos) começou a emitir notinhas sem se preocupar com a correspondência 1:1 em relação às reservas(escudos reais acumulados nos cofres do Bancamelia). Chegámos agora a uma nova situação. O volume de notas Bancamelia em circulação é dez vezes superior às reservas. O sistema fracional de reservas é de 1:10. Por esta altura os filhos e primos da D. Amélia ocupam o governo local (imaginemos um governo nacional complacente, ao contrario do que aconteceu em Worgl). Entretanto, as pessoas com contas à ordem no Bancamelia, usam cheques para fazer pagamentos, meras ordens de transferência entre contas existentes.
Mas o perigo nesta fase é uma corrida ao banco. Toda a gente a aparecer a redimir as notas sem fundos de retaguarda para a redenção (hoje em dia este problema é obsoleto, como veremos mais tarde). Então o governo local teve uma ideia. Decretou que:
1- As notinhas eram dinheiro legal para pagamento de toda e qualquer dívida,
2- Tinham que ser usadas para pagamento de impostos locais
3- Não mais eram trocáveis por Escudos palpáveis (como aconteceu nos EUA quando Nixon cortou a ligação com o Ouro nos anos 70). E mais,
4-Depósitos até um certo montante estavam seguros pelo governo.

dona amelia
dona amelia

Outra pausa. As reservas agora são Notas Bancamelia, a maior parte acumuladas nos cofres do banco, e o dinheiro circulante são cheques, meras transferências entre contas à ordem no banco, cujo valor agregado é igual às reservas de notas Bancamelia. E a relação entre reservas e dinheiro voltou a ser 1:1. Milagre!

Adivinhem o que se segue. Quando alguém aparece no banco a pedir um empréstimo, a banqueira limita-se a abrir uma conta à ordem em nome do cliente, sem se preocupar com a quantidade de Notas Bancamelia nos cofres. Quando o cliente emite um cheque sobre a sua conta, está a emitir dinheiro novo, criado do nada com um golpe de caneta na folha de balanços do banco. E cedo, o valor agregado das contas à ordem ultrapassa de dez para um o valor das reservas existentes. E assim por diante.
Neste sistema de criação de dinheiro, as reservas funcionam como um engodo. E como veremos mais tarde, a criação de crédito assenta por cima de formas pre-existentes de dinheiro, multiplicando-se. Imaginem uma fatia de bebinca em forma de pirâmide invertida.
É claro que neste cenário simplificado há só um banco. As transferências interbancárias não existem. A existência de vários bancos complica as coisas, mas basicamente o processo é o mesmo.
E deixemos os Eurodolares para outra vez.
Uma Pérola de Sabedoria: todo o dinheiro disponível existente, teve origem numa dívida original, contraída por um elemento do público para com um banco comercial.
E quando uma dívida é paga, dinheiro desaparece duma conta à ordem. Dinheiro é destruído.

“The study of money, above all other fields in economics, is one in which complexity is used to disguise truth or to evade truth, not to reveal it. The process by which banks create money is so simple the mind is repelled. With something so important, a deeper mystery seems only decent.”
John Kenneth Galbraith (1908-2006), former professor of economics at Harvard, writing in ‘Money: Whence it came, where it went’ (1975).

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

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