De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Constança Sargaçal

A princípio, Constança Sargaçal chegava de mansinho e sentava-se ao pé de mim, no poial do alpendre da parte de trás da casa da minha avó. Vinha sempre a rir, achando graça ao meu tamanho de criança humana, sempre senti que me gozava e ainda assim, todos os finais de tarde, eu esperava por ela. Um dia, ao aperceber-se disso, lançou-me o aviso «olha que eu um dia vou deixar de aparecer».
Constança Sargaçal era do tamanho da palma da minha mão aberta, tinha cabelos ruivos muito frisados que me faziam inveja, e contava-me muitas mentiras. Um dia perguntei-lhe onde tinha estado e respondeu-me que acabava de regressar do palácio. Que palácio, perguntei eu, exasperada.
Respondeu-me muito séria que sim, que vinha de um palácio e não era um palácio qualquer, era um de verdade e de tamanho real, onde vivia um tal de Luís XIV, que não sabia quem era mas que devia ser muito importante visto que todos lhe faziam vénias, e mais, que os ratos andavam pela mesa e comiam com a gente. Disse-me que um dia devia ir lá com ela, se não acreditava. Perguntei-lhe como mas ela encolheu os ombros e disse que isso não era problema dela, eu que me arranjasse como quisesse.
Outra vez, quando lhe confessei estar cheia de fome porque me tinha recusado a comer a sopa de restos que a avó me preparara, riu-se muito e disse que isso jamais lhe aconteceria, porque ela, Constança Sargaçal, não comia nada que não fosse com molho de francesinha. A sério, devias experimentar, disse, quando me viu olhá-la, incrédula. Lasanha com molho de francesinha, se nunca provaste devias.
Passado algum tempo, Constança Sargaçal deixou de se sentar ao meu lado no poial. Às vezes eu nem a via chegar, e ela, do alto dos seus dez centímetros, dava-me dois beliscões no braço. Deixa-me subir. Eu obedecia, estranhamente entre nós ela era que mandava, e ela subia pelo meu braço acima, com passinhos minúsculos e desordenados, e sentava-se na minha clavícula direita.
Nunca mo disse, mas tinha medo de tudo. Encolhia-se contra a minha pele quando voava perto de nós uma mosca, ou quando uma aragem mais forte agitava as folhas do limoeiro. Um dia perguntei-lhe porque é que se assustava tanto com tudo, mas ela sacudiu os cabelos em chamas e disse, muito alto «eu, eu não tenho medo de nada, era só o que faltava».
Constança Sargaçal mentia-me sempre, e eu gostava tanto dela.

Um dia perguntei-lhe porque me mentia tanto, e ela disse que era para que eu um dia, quando ela desaparecesse, pudesse escrever um livro sobre ela. Este é o jardim do bem e do mal, explicou-me, muito séria, como se punha sempre que começava a dizer disparates. Não, disse eu, este é o jardim da minha avó. Não, insistia ela, este é o jardim do bem e do mal, onde cabe tudo do mundo. Se conheceres bem este jardim, vais ver que todas as coisas do mundo cabem aqui, não é preciso mais do que um quintal com meia dúzia de árvores e couves plantadas para se perceber o propósito de tudo. Um dia, quando eu desaparecer e deixares de acreditar que eu fui real, este será o jardim do mal de crescer.
Por agora, estamos no jardim do bem da ingenuidade. Não percebes o que te estou a dizer?
Fiz que não com a cabeça, sentia-a encolher os ombros. «Pois não, é que tu não és muito inteligente ainda».
Constança Sargaçal dizia muitas coisas sem sentido, mas lembro-me que por alguma razão, esta me ficou na cabeça.
No último dia em que a vi, anunciou-me a sua despedida sem qualquer sinal de pena ou de angústia.
«Esta é a última vez que te venho ver», disse-me. Quando lhe perguntei porquê, disse-me que me estava a tornar demasiado velha e que em breve começaria a aborrecê-la com manias de gente grande. «Mais vale ir embora enquanto gosto de ti, assim guardo-te em boa conta e não te crio memórias de rancor».
Senti-me assaltada por uma súbita vontade de chorar, perante a ideia de nunca mais a ver, mas ela adivinhou-me e parou-me. «Hoje sorrimos» disse « porque dias de sol assim o merecem».
«Mas está a chover, Constança», disse eu, arreliada.
Ela riu-se pela última vez. «Aí talvez, aqui está sol»

Maria Inês Amaro
Maio, 2024

Desenhos de Rita Roquette de Vasconcellos (riVta)

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Escrito por

Estudou Gestão e Marketing e dedica a maior parte do seu tempo à escrita e às viagens.

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Últimos Comentários
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    História fantástica e bem escrita. Os desenhos também são ótimos. Gostei imenso de ler.