De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Bla, bla, bla…

Partida, largada, fugida! Pela manhã milhões de pessoas nos transportes públicos dirigem-se ao trabalho e ficam coladas aos visores dos seus telefones portáteis, os ditos telefones espertos. Enquanto esperam, ficam colados, enquanto falam, ficam colados, telefone em riste, como se de um Colt do faroeste se tratasse, pronto a empunhar ao mais pequeno sinal de ameaça. Em apenas quinze minutos pode-se fazer muita coisa, em quinze minutos ficam a saber como estará o estado do tempo, como se não pudessem olhar pela janela ou sentir o ar na cara, ficam a saber as notícias do mundo, deste e, quiçá, doutros, filtradas, claro está, pelas suas próprias preferências cuidadosamente e continuamente recolhidas pelos serviços grátis que usam, pensando estar a usufruir de algo neutralmente altamente informativo. Ouviram as novidades dos amigos, ou e-amigos, cem, mil, quantos mais, melhor, como se fosse possível cultivar amizades profundas com mais de umas poucas pessoas, já disseram que gostavam disto e não gostavam daquilo, expondo a sua intimidade ao mundo, orgulhosamente ou inconscientemente, do mal o menos, já viram o estado da bolsa de Nova Iorque, Tóquio e de várias cidades em diferentes fusos horários, o preço, muito razoável até, diga-se, das coisas que gostariam de comprar, fotos em alta definição dos corpos que gostariam de ter, preços, caríssimos, estes sim, dos produtos necessários para tais corpos esculpir, preço dos seminários, cursos, produtos de melhoria pessoal, pois, como bem sabe a publicidade, estamos sempre um pouco aquém das nossas verdadeiras vontades, é preciso estar sempre a evoluir, melhorar, sempre a melhorar até se ser mais-que-perfeito e depois disso, melhorar a perfeição, há sempre alguém pronto a manusear a nossa aparente imperfeição e a ganhar com isso. Já viram quanto tempo falta para chegar e a melhor maneira de o fazer, depois de inserir dois números compriditos no leitor de GPS e de esquecer como se lê um mapa, em casa, antes de sair e, porventura, perder-se, e ter de perguntar a alguém o caminho, dedilham freneticamente, escrevem palavras malformadas, abreviações inusitadas, acabando, simplesmente, e porque o tempo é pouco, sempre pouco, muito pouco, por abreviar até a alma.

Tudo isto requer muita energia, a pilha gasta-se, e o primeiro a encontrar a tomada escondida por detrás de um banco ou perto do sinal de alarme da carruagem em movimento é o vencedor, esse sim, telefone carregado, pronto para mais um caudal de informação fresca, sempre fresca, porque num minuto, tudo pode mudar, é preciso estar em cima do acontecimento, melhor ainda, no acontecimento, e isso é possível, sim, é possível porque estamos ligados sempre ligados e sempre a ligar ao que os outros gostam, à nossa rebuscada imagem virtual, sempre ligados, ao vídeo que fizemos, sempre ligados, ao vídeo engraçadíssimo que recebemos de um daqueles amigos, sempre ligados, à imagem titilante que escondemos pecaminosamente – mas não deveríamos partilhar? – sempre ligados ao que disse quem como e onde, ao vestido da pópestar, sempre ligados, sempre a falar e sempre a falar, e não olhamos para a cara da pessoa ao nosso lado, não vimos a paisagem passar, já não nos aborrecemos, isso nem pensar, não nos deixam tempo para tal. Ignoramos o olhar das crianças que procuram a atenção que não recebem por não poderem competir com tanta informação, tanta tecnologia, inteligente e artificial, e, caramba, muito sexy, cheia de acção. Como amo o meu pequeno écran! ah, como adoro o meu telefone, é a minha jóia mais adorada que levo comigo para onde for, que dorme a meu lado, o que tenho de mais precioso, ele sim, tem lá tudo, tudo o que sou, dá-me tudo, tudo o que preciso, tudo o que quero, tudo o que nem sabia que queria, amante perfeito. Sinceramente, às vezes fico espantado com tanta abundância gratuita, mas quem pagará isto tudo? pergunto-me, mas não interessa, estou na rede, nas redes, estou ligado, estou em todo o lado, e tenho bué amigos, lol, topas? blá blá blá…

Manuel Vilhena
Outubro, 2022

Galeria Reverso apresenta o mais recente trabalho de Monica Checchi e Manuel Vilhena. Uma dupla duplamente cáustica e rabugenta que mostra a sua visão sobre a maneira como as pessoas se relacionam com a tecnologia e os seus efeitos perniciosos – da maneira, não da tecnologia, coitada, essa que leva sempre com as culpas. Por mais cépticos e anti-acordo-ortográfico que possam parecer, estes joalheiros clássico-contemporâneos apresentam alternativas sólidas e possíveis, com uma boa dose de humor, retinto, pois sem isso, não há esperança para um futuro inteligente sem corantes artificiais. Convidam-vos a juntarem-se a uma renovada legião de piratas, aqueles que estão sempre à margem, por escolha, nunca obrigação, uma margem fresca, colorida, diferente.
Boa viagem.

Foto de banner de Manuel Vilhena – alfinete/broche (madeira e aço)”Hashtag”

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Escrito por

Joalheiro e professor, fundador de Postcon que promove e explora o tema da educação através das artes. Autor dos livros " Do you speak Jewellery?” e "Miss Amelia". Palestrante e educador em vários países. www.postcon.com

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    A procura de informação, ideias e conexão com outros fazem parte das nossas necessidades básicas… é fácil entender como ficámos todos viciados ao blá blá blá da caixinha virtual. E perdemos o espaço e magia do silêncio. Obrigada Manuel