De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Alexandre, O Grande

O general acabara de subir

o mais alto degrau

perto das nuvens.

Acima dele, já só

os astros maiores.

Famoso pelos seus feitos,

ousava, destemia,

amava deuses e cavalos de guerra.

Conquistava, alargava os seus domínios,

era dono do mundo.

 

Leão em toca de fogo

com ira de pedra de lume,

teria granito ou areia no coração?

 

É pôr-do-sol na Babilónia.

Roxana e Statira, no palácio,

riem cúmplices do pénis torto do general

de meio coração.

Perséfolis, o amigo destruído,

infectado de fraqueza,

jura vingar-se dele

como se necessário fosse

maior castigo, para quem já desconfia

do amigo

como de um parente pobre.

Anoitece.

O céu enche-se de olhos,

mas nenhum olhar aquece o general

que chora seco

o fracasso do sucesso.

Na profundidade de si mesmo,

uma dualidade cria feridas.

Nunca se detivera em ninguém,

em lugar nenhum,

sempre ocupado a chegar a outro sítio.

O general, o Grande, é só.

O homem, de nome Alexandre,

é pequeno.

Os seus cavalos envelheceram

é essa a lei.

Todos os animais envelhecem

mas só alguns humanos conseguem crescer.

Ao senhor do mais rico Império,

só lhe restava crescer, crescer até florir.

Invejou a água do rio que segue o seu curso

sem competir com outros rios,

sonhou construir uma ponte

com um sorriso,

tentou adivinhar

quanto pesa um coração.

 

Do alto da sua frágil fortaleza,

em vez de território,

avista pela primeira vez a Humanidade

carente de humanidade.

E parece entender que a Idade do Ouro afinal

era a idade em que o ouro não reinava.

 

Ana Zanatti
Setembro, 2022

Foto de Manuel Rosário

Partilhar
Escrito por

Estudou no Liceu Pedro Nunes, Faculdade de Letras, Conservatório Nacional (curso de teatro). Desde 1968 trabalha em teatro, televisão, cinema, rádio. Em 2003 começou a publicar romances e contos infantis. Continua a escrever.

COMENTAR

Últimos Comentários
  • Avatar

    A idade de ouro…a idade em que o ouro não reinava…Gostei muito. Abraç