De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

A tatuagem

Pertencia talvez àquela raça de homens alimentados a carnes vermelhas.

Homem grande, maciço, segurança de discoteca pensou a médica na sua avaliação rápida, de um curtíssimo olhar.

Tatuagens dispersas, bebidas proteicas encomendadas na Net e bicípites e gémeos a condizer. Olhou por segundos um mapa-mundo desenhado no braço direito do homem com pontos assinalados com uma cruz…

Talvez marinheiro, interroga-se a mulher atrás da bata branca.

Muda de bússola. Da pesca do atum,?. A apoiar-se nos pés com força e a puxar o bicho que se movimenta em lutas intestinas, à Hemingway.

Ou uma personagem de livro, de um qualquer romance passado em Porto Pim, com baleias e harpões imaginários? Que viera para a atazanar ou testar a sua criatividade literária, interroga-se a médica, que fazia o seu diário “de bordo” desde criança e escrevera umas redações elogiadas no liceu.

Era um homem do mar decididamente. Muito corpo, mais corpo do que mente, decidiu em poucos minutos. Profissão? – interrogou com as sobrancelhas em acento circunflexo.- Pescador!

Foi quando reparou no antebraço do homem, na parte interna do mesmo, do lado do coração. Desenhada uma fotografia de mulher de olhar escuro.

Os pensamentos da médica circulavam a alta velocidade. Disfarçadamente, num ou outro relance encontra uma face que a olha sorridente, cópia de um momento resgatado do disparar de um fotógrafo numa qualquer loja de vila, e que se mostrava mais ou menos contraída, mais ou menos descansativa consoante os movimentos do corpo do homem. Já não era uma fotografia estática mas uma outra coisa, uma entidade nova que se movimentava, com vida. Uma curiosidade absoluta invadiu-a e a sua retina procurava reencontrar aquele olhar desenhado na pele do homem.

Auscultou-o distraída. O pulmão com alguns ruídos não sofria nada de grave. Com tosse desde há uma semana, voltara do mar dois dias antes, com o peito cansado dissera. Era homem de poucas falas

– Mau tempo, ventos, marés adversas!…

Quando a consulta terminou saiu-lhe um inesperado: – Desculpe, posso fazer-lhe uma pergunta… Quem é a senhora que traz consigo no braço?

– Ah sim… é a minha avó! E mostra a imagem com o braço agora exposto Está sempre comigo, desde …sabe… desde que… converso muito com ela, sempre que preciso, que a bem dizer é todos os dias, e nunca me deixou ficar mal. Dá-me sempre bons conselhos!

– Mas fala consigo? – Sim, claro. Eu falo alto e ela responde, mas em voz baixa. Sabe como é? Muito baixinho, em pensamento, senhora!.

O homem grande ficou de repente como um menino, com cara de criança, exposto, com um brilhosinho no olhar molhado, e a falar, a falar, a falar… sem parar…

– Foi e é muito importante para mim. Ensinou-me que o mar não nos prende dentro das terras, mas é antes uma estrada para a aventura. O mar é o principio e fim de todas as coisas, sabe?

E ensinou-me a gostar da natureza, da terra, dos bichos, a respeitar o vulcão que pode sempre irritar-se com a gente, e explicou-me a geometria dos afectos, que é saber procurar as alegrias e afastar os desesperos.

– É isso que nos ajuda a sobreviver mesmo quando se perde a essência.

Ficou um leve sorriso, quase, quase, quase, alegre.

 

Leonor Duarte de Almeida
Janeiro, 2023

Fotos de Manuel Rosário

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Escrito por

Maria Leonor Duarte de Almeida é oftalmologista em Lisboa - cidade onde nasceu. Mestre e Doutorada em Bioética leccionou na Faculdade de Medicina de Lisboa como Professora Auxiliar em Oftalmologia. A escrita tem tido uma presença na sua vida, mas somente em 2002 se expôs como escritora. Publicou cinco livros de ficção, um livro de ensaio sobre Autonomia em Bioética, em 2008, e viu o seu trabalho reconhecido pela crítica, recebendo o Prémio Revelação da SOPEAM, sendo ainda distinguida como premiada em Novos Autores Portugueses, pelo do IPLB em 2002. É membro da Associação Portuguesa de Escritores.

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