De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

A pós-verdade

“Doutor, a doente está a ter um ataque” disse-me a enfermeira apontando para o monitor de video. Movimentos bastante atípicos, pensei eu, enquanto nos dirigíamos rápidos para o quarto da doente. Quando lá chegámos o “ataque” tinha terminado. A paciente jazia imóvel, de olhos fechados. Depois dum ataque de grande mal epiléptico, há uma diminuição profunda da esfera cognitiva e da vigilidade, que pode durar de largos minutos a horas.
Apressei-me a arranjar um pedaço de algodão que enrolei entre os dedos, e com que gentilmente toquei as pestanas de um dos olhos. Imediato pestanejar foi a resposta. Tentei abrir um dos olhos, levantando com um dedo as pálpebras cerradas. Resistência activa. Voltei-me para a enfermeira, de seringa na mão: isso não é preciso, ela está perfeitamente consciente e a ouvir-nos. Podemos voltar ao que estávamos a fazer.
A verdade revelada: A doente imitava um ataque epiléptico.
Deixei para o Neurologista a decisão de lhe dar alta.
E fui dispensado pela doente uma hora mais tarde, indignada e ofendida com a minha sugestão de fingimento.

A Doente
Vinte e tal anos e sem abrigo. Com o expediente de simular epilepsia, voltava ao hospital periodicamente, onde conforto e boa comida aliviavam uma existência ao ar livre, dormindo debaixo das pontes.
A minha descoberta da verdade, contribuiu de certa maneira para dificultar tão simples subterfúgio, e no fim nada se ganhou.
E uma indigente poderia ter perdido um parco beneficio.

A Enfermeira
Durante o tempo de escola e ao longo da sua vida profissional, tinha aprendido a lidar com doentes epilépticos, electroencefalogramas, monitorização, etc, mas nunca tinha ouvido falar dos métodos que me viu utilizar, e que expliquei exaustivamente: a presença daqueles reflexos eliminam a possibilidade de estado pós-ictal e garantem a existência de contacto sensorial com o ambiente. A doente estava perfeitamente acordada.
Relutantemente disse que sim com a cabeça, pouco interessada e pouco convencida. A curiosidade intelectual não era o forte dela.
Com o desmascarar da mentira, talvez ela tenha aprendido algo, mas no fim pouco se ganhou.
O Neurologista
Para ele não foi grande a novidade ! A razão que o levou a pôr o doente em vigilância video, foi exactamente por suspeitar simulação. No entanto os métodos puramente clínicos, não fazem parte dos protocolos que confirmam ou eliminam o diagnóstico de pseudo-ataque epiléptico. Há que documentar com exames auxiliares, como o electroencefalograma e monitorização com video (há toda uma indústria a alimentar). E se eu tivesse podido contribuir de qualquer maneira para abreviar a estadia hospitalar, teria retirado ao neurologista o pequeno rendimento diário duma consulta hospitalar de rotina.
O meu diagnóstico puramente clínico, teria contribuído de certa maneira para perturbar tão simples avença, e no fim pouco se teria ganho.

O Hospital
E se eu contribuí de qualquer maneira para abreviar a estadia hospitalar, tirei à instituição o rendimento diário duma estadia fácil, paga pelo Medicaid e sem muitos custos em termos de enfermagem ou recursos hospitalares.
O meu pequeno exercício heurístico, contribuiu de certa maneira para diminuir tão tranquila receita, e no fim pouco se ganhou.

O Internista
O cliente tem sempre razão. Uma opinião desfavorável fica no cadastro profissional do médico, qualquer que seja a razão.
A minha busca da verdade, contribuiu para um parecer negativo no meu curriculum, e no fim pouco se ganhou.

Meditação
A verdade pode ser assustadora, prosaica, intrigante. Por isso se inventaram as religiões. A credulidade implícita na aceitação da Santíssima Trindade ou da virgindade de Maria, é muito maior que a necessária para aceitar o trump.
A pós verdade é apenas um conjunto de crenças e conceitos de validade temporária, usados umas vezes e descartados. É utilitária. Sem coerência interna, o discurso leva à emergência duma para-lógica esquizofrénica, tão evidente nos silogismos e conclusões veiculados constantemente pelos meios de comunicação social.
E quando a verdade interfere com o funcionamento normal da sociedade, como no exemplo supracitado, a pós-verdade reina suprema.

O Trump é um grande presidente !

José Luís Vaz Carneiro
Tucson, Novembro 2018

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Curso em Medicina FML 1975.  Clínica Geral em África, 3 anos. Residência em Medicina EUA, Mount Sinai School of Medicine, Board certified. Hospitalista por 20 anos em hospitais dos EUA, reformado. Professor Agregado de Medicina, ano lectivo 1998 Yale University. Curso de Finanças e Banca Prof Perry Mehrling. Hobbies~Guitarra Clássica, Economia, História, Arte, etc

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Últimos Comentários
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    Muito bem observado e escrito , Zé Luis. Como dizia o outro, a verdade já não é o que era… Agora o que vale é o que dá lucro ou fama. Se para isso, for mais conveniente a mentira…Assim vai o mundo.