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A família Ahmed

Nos tempos que correm, todos os dias vejo nas redes sociais calúnias e videos falsos, acusando os migrantes asiáticos de crimes, tais como violações e extracções de orgãos dentro dos Uber, coisas que até seriam ridículas se não fossem trágicas.

E são trágicas porque o seu intuito é criar ódio.

Criar ódio a uma raça.

E isto faz lembrar o que aconteceu aos judeus na Alemanha, nos anos trinta…tudo começou assim…

A historia da família Ahmed pode não ter grande interesse, nem ser curiosa, mas é um retrato banal e verdadeiro de uma família paquistanesa a viver no meu bairro.

A família Ahmed

– Bom dia, digo eu a escolher as maçãs, então o senhor de onde é, qual é o seu país? E ele a rir-se, sempre a rir-se…

– Paquistão.

– Ah, e é solteiro?

– Sim, mas tenho noiva, para o ano vou lá casar e depois a noiva vem. E continua a rir-se, com a foto desbotada do Evereste como pano de fundo.

– E gosta de estar aqui?

Aqui é a rua Silva Carvalho, num rés do chão tipo vão de escada com cerca de 15m2.

– Sim, é bonito, e continua a rir pendurando as bananas  num arame.

– Então para o ano vem a mulher?

~ Sim, vem a mulher.

E no ano seguinte lá foi casar ao Paquistão e trouxe uma rapariga muito jovem, ainda adolescente.

A loja consiste numa enorme arca frigorífica, uma caixa de gelados e algumas prateleiras com bebidas, e dois cabazes com fruta.

A mulher está sempre atrás da arca, pouco se mostra. Ele explica-lhe coisas, ela sempre muito calada, com os olhos baixos.

E um dia saiu de trás do frigorífico e aí reparei que estava grávida, com uma barriga que já não cabia lá atrás.

Passados uns tempos, voltou para trás do frigorífico, mas com um bébé ao colo.

Depois esse bébé cresceu um bocadinho, e ela apareceu outra vez com uma grande barriga…

Depois as duas crianças brincavam atrás da arca e ela já ousava atender os clientes.

Depois…

Até que já eram três crianças a brincar atrás da arca frigorífica e ela, atirando já um bom dia, obrigado e custa um euro, completamente compreensíveis.

Houve três crianças que nasceram e cresceram literalmente em quinze metros quadrados ao longo de três anos e meio.

Como eles vendem cervejas geladas à noite, a dita arca frigorífica é posta a atravessar a entrada, fazendo de balcão, e protegendo a loja de algum transeunte mais desordeiro…  É uma arca multiusos, vai de balcão de bar a jardim de infância!

No mesmo prédio, nº 63 da Silva Carvalho, vivia a D. Odete, no terceiro andar. Vivia sozinha no prédio, que tinha sido comprado por investidores imobiliários. Tinham-lhe oferecido vinte mil euros para ela sair. Como ela não aceitou, retiraram-lhe o corrimão e os interruptores das escadas. Pediu ajuda ao gabinete jurídico da Junta. Voltaram a pôr o corrimão, mas os interruptores não. A filha e netos, moravam fora de Lisboa, e só a recebiam se ela levasse pelo menos setenta mil euros. Optou por ficar, tinha noventa anos, ia estando…Mas em troca apanhava sustos todos os dias, ou era uma máquina a esburacar a escada, simulando obras de demolição, ou barulho nos apartamentos vazios durante a noite.

Durante o bom tempo, a D. Odete sentava-se numa cadeirinha junto à porta do Ahmed, e a clientela ia falando com ela. A Fatma, embora falando muito pouco, ficava muito escandalizada com a situação,« senhora muito velha, não tem pessoa perto». Pois na sua terra os velhos não vivem sozinhos, mas rodeados da família e são muito respeitados.

Ao fim do dia, ajudavam-na a subir as escadas, carregando as compras até ao terceiro andar.

Há uma semana passei na loja.

– Olá Fatma, a D. Odete está boa? ( não estava como sempre à porta sentada na sua cadeirinha.)

A Fatma não respondeu e não sorria. Calada como sempre, mas com um ar muito mais triste.

Ao virar a esquina, cruzei-me com uma vizinha do prédio, frequentadora do Ahmed e que conhecia a D. Odete há muitos anos.

– Então já sabe que a D. Odete foi encontrada morta em casa? Foi o paquistanês, vendo que ela não ia lá abaixo, foi-lhe levar o leite e o pão, e deu com ela estendida na entrada! Coitadinha, já tinha morrido há três dias… Bem que a podiam ter deixado em paz, os tais investidores…o monhé veio-me tocar à porta para eu avisar a filha, já lá vão quarenta anos que foi viver para os lados de Setúbal… e arranjar o telemóvel dela…o cabo dos trabalhos…

E percebi que a Fatma por pudor não me contou nada!

Por respeito, não fez da morte da D. Odete uma novidade para as vizinhas falarem à porta da loja.

Manuela Carona
Dezembro, 2023

Fotos de Manuel Rosário

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Escrito por

Actriz, nasceu em 1947, natural do Porto, vive em Alfama

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